sábado, 28 de fevereiro de 2015

Perder


Da primeira vez que fiquei grávida, foi tudo direitinho, tudo dentro dos planos.

Eu tinha um relacionamento de muitos anos, um companheiro de amor e de vida. Nós sempre acalentáramos o plano dos filhos, mas era para depois. Um ano antes de engravidar, no meu trigésimo aniversário (sim, sim, minha vida é cheia de clichês...), passei por um momento estranho e arrebatador, em que a perspectiva de uma gravidez subitamente deixou de ser um receio e ganhou naturalidade. A ideia foi acolhida, o desejo amadureceu.

Houve preparativos práticos, também. Fui ao médico, fiz exames, tomei ácido fólico por três meses. Encaixei o cronograma do mestrado com a gravidez e a licença-maternidade. O marido pensou num modo de tirar férias após o nascimento do bebê.

Engravidei na primeira tentativa. Ficamos espantados, orgulhosos, eufóricos. Saímos para comemorar, e na mesma noite começamos a espalhar a notícia.

Num piscar de olhos, somos especialistas em beta HCG, ultrassonografias, placentas e sacos gestacionais. Sei tudo sobre os sintomas do primeiro trimestre, e felizmente quase não os sinto.

Por volta da 10ª semana de gestação, o exame de ultrassom vem decretar a ausência. A ausência do que era o mais presente em nós. Não há nada lá. O embrião não se desenvolveu. Gravidez anembrionária, aprendo. Ovo cego. Detesto esse termo.

O fluxo de instantes da vida não prevê espaço para o momento inesperado. Nunca estamos prontos. O incêndio nos surpreende de pijama, comendo sopa de pacotinho. Era no meio do dia. Almoçamos. Meu marido foi trabalhar, eu fui para casa. Não trabalhei. Fiquei pesquisando sobre aborto espontâneo na internet.

Na mesma tarde, uma amiga vem me ver, e eu lhe digo: “Hoje me tornei adulta. Perdi um filho.”

Me lembro claramente desse sentimento. Mas a situação técnica não era essa. Ovo cego, diz o Google. O embrião nunca se formou. Penso em parede cega – aquelas áridas laterais de prédio sem janelas, viradas para o nada. O nada. Não havia bebê. Sensação de ser traída pelo próprio corpo. Como minha barriga me deixava acariciar o bebê que não havia, como eu podia não saber?

Dizer “Quando perdi o bebê” me foi impossível por muito tempo, parecia que não era honesto ou preciso. Assumi a frase “Quando tive o aborto”. Mas hoje começo a me permitir dizer que perdi o bebê. Aceitar que perdi o bebê.

Eu perdi o bebê, aquele que eu acalentava, que estava dentro de mim, embora não crescesse no meu útero.

Os dias que se seguem são de um atordoamento estranho. Fico ressentida com o marido que não tem vontade de falar sobre o assunto. Eu quero falar. E chorar.

Tive um aborto espontâneo dias depois. Começou no banheiro de um auditório, estávamos num show de música. Saio do banheiro chorando. Seria o primeiro de uma série de choros contidos em lugares públicos. Durou alguns dias. O sangramento. O choro durou mais.

Não precisei de curetagem, clínica, hospital, nada. Um aborto espontâneo e completo. Útero limpo. Coração em frangalhos.

O filho que eu não tive veio me lembrar que a vida não se planeja. Podemos nos preparar, podemos acalentar o vindouro e deixar tudo arranjado para acolher sua chegada. Aprendemos no processo. Mas o caminho à frente nunca foi percorrido. Sempre.

O filho que eu não tive ajudava a preparar a mãe que eu seria.


terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

(In)defectiva


A ginecologista nova não pergunta de ginecologias. Pergunta como está a vida. E ela fala sério, não se trata de "Tudo bem" e um sorriso amarelo. Não dá folga.

Lá pelas tantas estou chorando. (Ela tem lenços à mão, sabe de seus talentos.)

- Confesso que ando às voltas com o fantasma do corpo defectivo. E se tooodos os meus filhos ficarem sentados? Eu fiquei sentada. Ela ficou sentada. Talvez eu tenha uma bacia errada, uma coluna torta, uma maldição qualquer que sentará todos os meus bebês.

- Bebês sentados nascem bem, e até mais rápido. Se todos os seus filhos ficarem sentados, talvez seja porque você é uma mulher ótima para parir bebês sentados.

Há quem alimente nossos fantasmas. Encontrar quem ajude a exorcizá-los é uma dádiva. Ou uma conquista.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

O nome dos bois


Tem gente que gosta de marca. Lacoste, Prada, Gucci. Peppa, Hello Kitty, Elsa.

Mas eu, que sempre fui mais de camiseta, bolsa, óculos de sol, prefiro porquinha, gatinha e princesa.

O dia depois de hoje


Calor escaldante.

Com a roupa mais fresca que o ambiente paulistano me permite circular por aí, deixo a filha na escolinha de férias e vou procurar um lugar próximo para me aboletar com o laptop pelo resto da tarde.

Dentro da padaria me sinto a salvo. Verdade que o ar-condicionado é quase neutralizado pelo calor que sai da cozinha, do bufê de comida quente e da multidão que circula com seus pratos pra lá e pra cá, mas esse "quase" me faz sentir que a vida pode ser normal.

Se eu estivesse em casa, certamente tomaria três banhos ao longo da tarde. O vizinho ficaria indignado com a minha falta de consciência sobre a crise da água (que ele pensa que é culpa minha e da falta de chuva, e não do governador que ele elegeu).

Mas estou na padaria. Tentando levar uma vida normal. Ligo o computador. A internet não funciona. Tento telefonar para conseguir ajuda sobre o sinal de internet, mas o sinal do celular também não está bom. Trabalho como dá. Penso naqueles filmes de gente que tem transmissor de rádio e conhece código Morse.

Levanto pra ir embora e espio pela vidraça. O céu está com aquela carranca avisando que eu não devia tentar andar pela rua no fim da tarde. Olho o carro: esqueci os faróis acesos a tarde inteira.

Pago. Saio da padaria. O carro liga, ufa. Pego a filha na escola sob os primeiros pingos gordos de chuva. Que bom, vai refrescar um pouco.

Decido parar e comprar uma fita adesiva para remendar a tela contra mosquitos da sala. Esses pernilongos não respeitam nada, meu deus. Tento avisar o marido que vou demorar um pouquinho mais, mas o telefone ainda não funciona.

Uma árvore cai na rua da loja. Via bloqueada não se sabe por quanto tempo. Fico "presa" ali por três horas, tentando distrair uma criança de três anos. Pão de queijo, suco de manga. O liquidificador funciona. Mas é pelo gerador, pois na verdade a área está sem energia.

Tiram a árvore. Vou enfim para casa por ruas quase alagadas, lentas, de semáforos apagados e caídos.

******

Este verão em São Paulo está rescendendo a filme-catástrofe de Hollywood. Não se espante se o Will Smith cruzar com você na rua, ou o Morgan Freeman aparecer fazendo pronunciamento na TV. Se você tiver energia e sinal de TV, claro.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Férias


Aproveitando o primeiro dia do ano para fazer uma confissão bombástica: eu não gosto de praia.

Vamos ser francos: gosto de passar o dia à toa, tomando caipirinhas e comendo peixe frito. Mas, se for na sombra e não tiver areia, tant mieux!

domingo, 7 de dezembro de 2014

De olhos abertos


Eu não sou uma pessoa mística. Mas Teresa nasceu exatamente como eu imaginava: parecia que a menina tinha mandado seu anjo da anunciação carregando retrato. Cabelos escuros, olhos grandes e abertos. Muito abertos. E firmes. Nunca teve olhos de recém-nascido: já veio encarando o mundo de frente. (Vai ver conhecia o poema.)

Também nasceu de unhas compridas, a pele descamando. Uma enfermeira disse à minha mãe que era porque passou do tempo. Ela não passou de nada. Nada lhe passa.

Ficou sentada, ninguém sabe por quê. A despeito da yoga, a despeito da acupuntura, a despeito da tentativa de versão cefálica. Foi até o meio e voltou. Ficou sentada. Decidiu que eu teria de me haver com aquilo. (Não tinha eu também ficado sentada? Então...)

Não bastasse a posição pélvica, ela soube reivindicar o tempo que lhe era de direito. Às 39 semanas, rompi com a obstetra que me acompanhara e que decidiu, na terça-feira, que quinta era um dia conveniente para a cesárea. Em duas semanas, falei com mais médicos do que falara nos últimos dois anos. Às 41 semanas ela veio para o meu colo. Sem trabalho de parto. Na cesárea não planejada, desplanejada, replanejada.

Parece que a menina que me olha nos olhos e diz o que quer tem seus próprios planos.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Para falar de desmame


Teresa parou de mamar. Encerramos nossa amamentação.

Poderia dizer que desmamou (e desfraldou, aliás...). Mas eu detesto essas palavras. Não sei bem por quê. Neurose de mãe superprotetora que não quer que a filha saia de baixo das asas. Receio da ideia de estar tirando alguma coisa dela. Recusa em fazê-la objeto de um outro ser que lhe impõe uma falta, uma carência.

Ela conquistou seu desmame e seu desfralde. Não foi desmamada nem desfraldada. Ela está crescendo (preciso dizer que a menina cresce mais rápido que o tempo), e assim coisas novas podem entrar em sua vida, como a capacidade de comer de tudo, de dormir sem sugar, de ganhar o banheiro.

Daí que um dia, contando a uma amiga que minha filha não mamava mais, fiquei procurando uma frase para dizer em vez de “Foi um processo bem natural...” Ela ficou um pouco espantada com a minha recusa em relação à palavra “natural”, hoje tão frequentemente associada a apreciações positivas.

Dia desses li qualquer coisa em qualquer lugar sobre pesquisadores terem identificado comportamento homossexual em animais. A ideia era que esse é, portanto, um comportamento muito “natural”, logo não deveria causar escândalo que seja observado entre seres humanos. A classificação de “natural” legitima o ato. Se é natural, devemos respeitar, pois a natureza não é boa nem ruim (embora haja quem diga que ela é sábia), a natureza apenas é – e quem seria o insano a se rebelar contra aquilo que apenas é? Bem, a mim me parece que o comportamento homossexual entre seres humanos é legítimo não porque ele é da natureza, mas porque é da humanidade. Porque é uma realização do afeto e da sexualidade humana. Porque é um dos caminhos socialmente construídos para o estabelecimento de relações humanas, para a satisfação e crescimento mútuo dos envolvidos.

Seres humanos não são naturais. E o que dizer depois da desfaçatez de lançar assim uma frase categórica para cuja sustentação eu não tenho repertório filosófico? Nós temos fisiologia. Temos instintos. Mas conquistamos a capacidade de refletir de maneira inédita sobre nossa própria existência e sobre a alteridade. E sobre nossa fisiologia e nossos instintos. A individualidade iluminista e liberal instrumentalizada pelo mundo do dinheiro e do trabalho (cá estou eu metendo-me em filosofias que não conheço) alimenta uma atitude aparentemente libertadora de reivindicação do natural. Porque algo precisa se opor ao sufocamento do corpo, da fisiologia e do instinto sob a lógica da máquina e do relógio.

Mas essa oposição não pode ser a reivindicação do natural. O natural é aquilo que não somos mais, e já foi dito que a história só se repete como farsa. Se estamos para utopias, a minha é a do humano, não a do natural, a da realização plena do humano. Seja lá o que isso for.

(A expressão “parto natural humanizado” revela bem que o “seja lá o que isso for” é algo que ainda não sabemos bem o que é. Talvez a possibilidade de um atendimento à mulher que constitua de fato um caminho em direção a essa utopia seja algo tão inimaginável que ainda não se pôde nomear.)

E nessa mesma trilha vem o “desmame natural”, entendido como aquele que respeita os ritmos da mãe e da criança, que respeita as fisiologias e as necessidades mais íntimas daqueles dois seres.

Eu acredito que vivi o processo de amamentação da minha filha com a profundidade que a expressão “necessidades íntimas” sugere. O que ele me fez descobrir a respeito de mim mesma e o que me permitiu refletir sobre a relação entre pais e filhos foi impressionante, para mim. E o fim dessa amamentação se estabeleceu de maneira gradual, lenta, penso que respeitosa para nós duas e, até, prazerosa e divertida.

E isso não foi natural coisíssima nenhuma!

Foi construído. Foi construído pela persistência para que a amamentação se estabelecesse. Foi construído nos primeiros dias, quando ela não conseguia mamar e aceitou o leite ordenhado oferecido pelo pai. Foi construído naquelas mamadas doloridas. Foi construído naquelas mamadas prazerosas, de troca de olhares profundos. Foi construído quando fazíamos nosso mamá no sling, na yoga, no bar. Foi construído quando entendi que os infinitos despertares noturnos não eram bons para mim. Foi construído quando me irritei com a demanda que me parecia grande demais. Foi construído quando parei de interromper refeições e outras coisas importantes para amamentar. Foi construído quando entendemos que podíamos jantar e conversar juntas, e que isso também era gostoso. Foi construído quando percebemos que brincar na festa podia ser mais gostoso que mamar na festa. Foi construído em cada momento em que ela percebeu que se precisasse mesmo, poderia mamar no meio da noite, da refeição ou da festa. Foi construído em cada noite em que a amamentação era necessária para trazer o sono, e em cada noite em que dormimos cantando. Foi construído a cada vez que ela mamava um tiquinho, ria porque o leite tinha acabado e pedia o outro peito. Foi construído a cada noite em que contei a história da menina que não sabia comer e foi crescendo e agora sabia, e ela enumerava todas as coisas que já sabia comer. Foi construído até o último momento, quando nossa amamentação se encerrou quase que com uma gargalhada.

Isso não é natural. Precisamos de outra palavra. Isso é uma busca deliberada por autoconhecimento e disposição consciente para se ligar ao outro. Isso é humano.

Teresa parou de mamar. Encerramos nossa amamentação. Da última vez, ela tentou, começou a rir desabridamente e lançou “Não tem nada, né, mamãe? É porque o peito sabe que eu já sei comer.” Assim encerramos essa fase da nossa relação: juntas e rindo.

Que sejamos capazes de caminhar sempre assim, minha filha.

domingo, 2 de novembro de 2014

A criança e a palavra, ou por que menina também pode falar palavrão


Esses dias assisti a um vídeo de uma campanha sobre violência contra a mulher, em que meninas vestidas de princesa – com direito a cetim cor-de-rosa, tiara e purpurina – enchem a boca de palavrões, bem daqueles que a mamãe e a professora não deixam a gente falar, para lançar uma provocação: seriam esses palavrões mais chocantes, prejudiciais e ofensivos do que uns tantos outros que têm trânsito livre por aí, como desigualdade salarial, violência contra a mulher ou estupro? Para arrematar, um garoto também vestido de princesa entra em cena disparando gírias tipicamente masculinas, para esculhambar o tratamento que os homens dão às mulheres.

Não sei da efetividade da campanha, mas a pegadinha funciona: as pessoas ficam escandalizadas com a boca suja da criançada.

É impressionante como a sociedade é prescritiva em relação ao uso da língua. Há muitos anos, quando eu era professora de Língua Portuguesa, um colega, que atuava de maneira muito estreita com o movimento pela reforma agrária no Brasil, veio conversar comigo sobre sua vontade de criar um projeto para desenvolver as capacidades de comunicação e expressão dos trabalhadores rurais com quem ele militava. Ele se preocupava, como de costume, com o fato de que aquelas pessoas não dominavam a norma culta e isso as prejudicava de alguma forma. Emprestei-lhe um livro do Marcos Bagno, que eu adoro, chamado Preconceito linguístico, em que o autor discute e demonstra o quanto nossa apreciação sobre a “boa língua portuguesa” é preconceituosa e equivocada, e o quão político isso é (ler o livro é tarefa prazerosa para uma sentada, pois é curtinho e plenamente acessível a não linguistas). Isso mudou a perspectiva do meu colega a respeito do projeto que vislumbrava.

Esse preconceito tão amplamente arraigado em nossa sociedade é propagado de maneira sólida inclusive pela escola, instituição supostamente encarregada de ampliar nossas possibilidades de conhecer, questionar e produzir o mundo. Desde muito cedo, procuramos moldar a expressão linguística das crianças – indicando o que é certo e errado, feio e bonito, o que pode e não pode –, com o mesmo tom de quem difunde preceitos morais. Em minha opinião, fariam melhor os pais e a escola se procurassem proporcionar aos pequenos a experiência da complexidade da linguagem (já seria muito bom se não se esforçassem tanto para bloqueá-la, porque as crianças acham por si mesmas muitos caminhos para alcançá-la). São muitos os registros, os jargões, os dialetos; todos compõem a complexidade da língua; todos têm razão de ser; cada um deles que conhecemos acrescenta algo à nossa capacidade de expressão e de apreensão do mundo. Isso não significa que precisemos ou devamos abdicar do papel de mediação e até de proteção que o processo educativo implica – eu posso evitar que minha filha assista a cenas de sexo explícito na televisão, mas nem por isso vou dizer a ela que sexo é feio.

A literatura vive entre o poder e o limite da palavra. Toda uma legião de poetas românticos debateu-se com uma língua dilaceradoramente incapaz de dar voz a seu sentimento. Graciliano Ramos descobre em um de seus meninos o espanto e o temor de se deparar com o desconhecido, não só o ainda não visto, mas o inomeado: “Livres dos nomes, as coisas ficavam distantes, misteriosas.” A criação e o aprisionamento são as prerrogativas contraditórias da palavra, entendeu a Joana de Lispector: “É curioso como não sei dizer quem sou [...] Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto, como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo.” Guimarães Rosa viu tantas possibilidades na língua que lhe foi legada, que misturou tudo e fez outra.

E nós, pais e educadores, com a pretensão de estar bem formando o que virá, nos amesquinhamos apontando “feios” e “errados”... Considero aterrorizante que a nossa educação linguística – ou seja, a educação relacionada a uma prática social de tamanha amplitude e diversidade – tenha como referência e horizonte a definição e o domínio de um padrão muito restrito e uniforme, e a supressão e estigmatização de tudo o que não corresponde a ele.

Na ânsia de formatar o comportamento aceitável, criamos para as crianças uma prescrição altamente restritiva sobre o uso da língua. Criamos zonas proibidas da linguagem como criamos zonas proibidas do corpo: “Tira a mão daí”, “Não é assim que se fala”, “Não fala isso, que é feio!”. E ainda mais para as meninas. Em nosso imaginário e nossa prática marcados pela dominação masculina, do mesmo modo como a manipulação do próprio corpo é mais aceitável quando observada em meninos, a liberdade de manipulação da língua também é mais ampla para eles: o palavrão lhes cabe melhor (e o vídeo das meninas “boca suja” sabe disso, tanto que o garoto não fala palavrão – chocaria muito menos , mas adota ironicamente gírias e expressões tidas como masculinas). Meninas não correm, meninas não gritam, meninas não falam palavrão. Às mulheres cabe um espaço restrito, um corpo restrito, uma língua restrita.

A língua, prática social, criação permanente, coisa viva, alimenta-se daquilo que fomos capazes de forjar, e nos permite apreender o que há. Deusa de duas caras, oferece-nos os instrumentos e os obstáculos do instituído, e observa como nos saímos na extenuante-regozijante tarefa de dar forma ao vindouro, criar a criação. Não serei eu, como mãe, que abraçarei a tarefa de amesquinhar isso. Ou de ensinar a minha filha que seu direito a essa complexidade é menor que o de qualquer outra pessoa.

Eu não ensino a minha filha que menina não fala palavrão. Abraço a missão de ajudá-la a encontrar os meios para dizer tudo o que ela desejar.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Encontros


Teresa foi gestada por muito tempo.

Seu nome nasceu e ficou dez anos esperando que a menina nascesse (licença, Bandeira). Na verdade, mais. Era uma época em que eu ansiava por novos caminhos, mas achava que era tarde (tinha pouco mais de vinte anos: a velhice me chegou cedo ao coração...). Uma mulher muito cheia de vida despertou meu gosto por esses nomes um pouco velhos, dignos, que se renovam na pele daqueles que carregam alegria.

Hoje sei que não era tarde. Nunca é. Exceto quando já não nos toca, mas então não tem importância.

Aquele que seria meu companheiro dos caminhos mais bonitos ainda não estava lá. Mas já era sua aquela menina, pois quando falamos de nossas meninas elas logo se reconheceram.

domingo, 28 de setembro de 2014

Cultura pop


A terapeuta pede que eu faça uma colagem de recortes de revista representando a mulher que quero ser. Algo assim. Não consigo reter precisamente a proposta, porque não gosto dessas coisas e aceito meio que com preguiça.

Fico duas semanas enrolando para procurar as imagens, e nesse ínterim só penso que eu queria ser a Rita Lobo. Preciso rir de mim mesma, mas fazer o quê?... Penso naquela mulher linda, naquela desenvoltura, naquela casa fantástica, naquelas comidas sorrindo para as fotos, naquela louça que rescende a Oriente, bem ao lado de uma linda estante de livros impecavelmente organizada. Sou vulnerável ao personagem, impossível negar.

E minha filha também, ao que parece. Pede pra ver o programa repetidamente (coisas da televisão moderna: a gente pode ver o programa mil vezes...), decora frases, quer imitar o cabelo! Daí que um dia, enquanto ela assistia a um dos episódios e eu preparava o jantar, um trechinho de música de fundo daquela cozinha mágica me fisgou, achei linda e, influenciada pela receita de ares marroquinos que a mulher preparava, achei até que a canção tinha toques das Arábias.

No dia seguinte, lanço para o marido (que, diga-se de passagem, implica com os cuidados e caprichos da cozinheira invejada):

– Tocou uma música tão linda no programa da Rita Lobo – vê se você conhece e me ajuda a achar na internet? – e já vou colocando o programa pra rodar e ele ouvir o trecho. Enquanto ouço a música com atenção, num volume mais alto, vou percebendo uma vaga familiaridade: – Ué... mas é o Caetano? Que música linda essa do Caetano...

Marido quieto. Marido lança, com algum desprezo na voz:

– Coloca “Jokerman” no Google. Isso é um clássico do Bob Dylan.

– Ahhh...

Procuro a música, ouço o Caetano, ouço o Dylan, saltito aqui e ali descobrindo a história da canção, de Dylan e do álbum, leio opiniões engraçadas de gente que escreve blogs para discutir suas interpretações de canções, poemas e afins. E mando minha opinião abalizada:

– Amor, gostei mais da do Caetano.

Desta vez, nenhuma resposta, e um olhar de desprezo um pouco mais profundo.

*****

Ainda não sei muito sobre a mulher que quero ser, mas quanto à mulher que eu sou, parece que o forte dela não é mesmo cultura pop.

*****

Me consolo com a história de um amigo que só depois de casado foi “descobrir”, pela mulher, que o Jimi Hendrix era negro.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Noite


Às sextas-feiras, é particularmente difícil.
Normalmente não é fácil, mas às sextas-feiras é particularmente difícil.
Hoje foi terrível.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Resenha


Ela escreveu o livro que eu queria escrever. Não pela temática, que pode parecer óbvio. Pelo ritmo. Nunca imaginei que o livro que eu queria escrever tinha aquele ritmo.

domingo, 10 de agosto de 2014

Tradição


Vai ver que também sou tradicional. Caipirinha boa mesmo é açúcar, gelo, limão e cachaça. Essa história de morango e saquê pode até ser bom, mas, cá entre nós, é meio sonsa... (E quando o garçom pergunta se você quer com adoçante? Não consigo não dar risada...)

Mas bem que tudo pode ser melhorado: as caipirinhas aqui da praia despertaram minha vontade de voltar ao Dita Cabrita para tomar a caipirinha que vem com um pauzinho de cana como mexedor, ah que delícia...

Moral da história: já estou com saudade de casa...

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Doçura mineira


Na quarta placa anunciando o tradicional e legítimo rocambole de Lagoa Dourada, ele começou a ficar inquieto. Que prazer inesperado: sem planejar, estávamos atravessando a capital brasileira do rocambole! E as placas não cessavam - propaganda é tudo. Claro que ele parou e comprou um tradicional e legítimo rocambole de Lagoa Dourada, enorme, entregue pelas mãos da própria confeiteira, que faz apenas seis deles por dia, realmente artesanais - não é como esses das grandes padarias que fazem dezenas de rocamboles diários, sem personalidade, para vender aos ônibus de excursão (isso mesmo: ônibus de excursão param em Lagoa Dourada para que os turistas comprem rocamboles). De goiabada, que ele é um homem tradicional, como o rocambole. Nada de chocolate e baunilha.

Quando chegamos a Belo Horizonte, na casa dos nossos amigos, o rocambole foi devorado em instantes por todo mundo, menos eu, que achei que o quitute tinha muito gosto de, bem, de açúcar... Afinal, era uma massa doce, recheada com uma geleia doce, e recoberta por uma camada de açúcar peneirado.

Agora, olha essa em Tiradentes. Hora de almoço. Entramos num café modernete eco-natureba-gourmet. Ali me serviram uma saladinha de cevada que foi uma das coisas mais bem temperadas que já provei na vida. Peço uma água com limão espremido e gelo, já que uma cerveja me desmontaria pelo resto da tarde e o calor e a ladeira bem combinavam com um limãozinho refrescante. Vem um copo lindo, de vidro grosso colorido, com um cheiro enjoado. Bebo, e nada da refrescância do limão. Peço mais limão. Piora. Demoro séculos para entender que não me trouxeram limão espremido, mas um xarope de limão cheeeeio de açúcar! Pode?!

Mas devo dizer que o café tem sido sempre bom, e pelo menos até agora ninguém me ofereceu café adoçado...

terça-feira, 22 de julho de 2014

Trabalheira


E se a gente nunca precisasse atualizar o Java?
E o pneu nunca furasse, e o esmalte não descascasse?
Nunca a torneira pingando, e todos os interruptores funcionando.
O ônibus não demoraria, e nunca fila na padaria.
E todas as calorias queimassem, e só o salário engordasse.
Enfiar o pé na jaca, e jamais uma ressaca!
A cama muito grande, pra espalhar a família inteira.
Tempo de sobra e muito espaço, e um vasinho no terraço.
Champanhe e tiramisu, de preferência pra comer nu.
Sem ruga na testa, nem pulga atrás da orelha,
fazer só o que der na telha.
Então...
Aaaai que trabalho que dava
olhar pra dentro da gente
e descobrir o que incomodava...

terça-feira, 3 de junho de 2014

Culpa de quem?


Como eu sou uma moça de classe média, tenho indignações típicas de classe média. E, como é de conhecimento geral, a classe média sofre que se estrebucha.

Por exemplo, durante o Grande Calor Escaldante de 2014, como ficou conhecido aqui em casa o evento climático que me enlouqueceu em janeiro e fevereiro deste belo ano, eu queria desesperadamente alguém para culpar - afinal eu sou uma cidadã de bem, cumpridora dos meus deveres, com impostos e crediário em dia, então como assim eu ia passar aquele incomensurável aborrecimento sem processar ninguém? Sem pedir nenhuma indenização? Xingar nenhum político? Nem um vizinho? Nadinha?... Bem, elegi o shopping como meu quintal com ar-condicionado e para lá ia todas as noites, reclamar que nem o ar-condicionado do shopping estava dando conta... Alguém tem que dar um jeito nisso, ora essa!

Agora, imagina que a pessoa aqui ganhou uma linda cafeteira e resolveu fazer um "cantinho do café" na sua mesa de trabalho. Mesa de trabalho e de todo o resto: desenhar com giz de cera (na mesa mesmo, não no papel sobre a mesa, certo?), espalhar todas as cápsulas de café e guardá-las novamente (12 vezes), assistir a incontáveis vídeos do "passarinho, que som é esse?" no YouTube, e por aí vai. Então. A latinha com açúcar é meticulosamente guardada no alto todas as vezes. Todas as vezes. Menos quando a pequerrucha senta sozinha pedindo pra ver o dito passarinho e a mãe agilmente liga o play e corre para a cozinha a fim de aproveitar os momentos de quietude - de repente, muita quietude - e fazer o jantar...

Imaginaram a criança e todo o seu entorno empanados em açúcar? O tapete? A cadeira estofada? Mascavo, gente...

Deve ser culpa de alguém. Do passarinho, talvez. Minha que não é...

sexta-feira, 23 de maio de 2014

tempo


velhos amigos rejuvenescem
não importa se passaram dez anos
ou dois oceanos

segunda-feira, 10 de março de 2014

A delicadeza é azul. Ou cor-de-rosa-choque


Depois que tive minha filha, minha casa passou alguns meses praticamente sob a luz de um abajur da sala, coberto com um lenço lilás para quebrar a luminosidade. Na época influenciada pela ideia da exterogestação, hoje acho que muito daquela penumbra era para mim. As luzes e o volume da TV aqui em casa nunca mais foram os mesmos. E eu tão reconhecidamente estabanada ando ligeiramente fascinada pelos gestos calmos e precisos de meu marido e minha filha. Ando fascinada pela delicadeza.

Os clichês são uma desgraça. Eles ajudam a organizar a nossa compreensão do mundo, mas depois dá um trabalho desconstruir tudo... É que a delicadeza não precisa ser bem assim penumbra e tons pastel. Eu tenho uma tia que é um furacão de alegria, vibrante, bem-humorada, espalhada. E uma delicadeza. Não deve ser à toa que tenho pensado muito nela.

Recentemente virei fã de uma série de época inglesa, daquelas em que todos escolhem cada palavra, numa ginástica entre protocolo e circunstância, para se portar apropriadamente no trato com cada pessoa de cada nível social. Um pesadelo de hipocrisia, submissão e artificialidade? É... Há um certo tempo eu diria somente isso. Mas hoje tem alguma coisa ali que me atrai. A ideia de que é necessário avaliar o que se diz às pessoas, de que as coisas devem ser ditas de modo apropriado, de que há uma certa linha de contenção a ser respeitada, isso tem me interessado. (Talvez seja algo que a gente desenvolve após passar meses ouvindo cada ser humano conhecido e desconhecido te dizer se você devia ou não dar chupeta à sua filha.)

J’aime la politesse?... Evidente que esse tipo de relação protocolar se instaura para a manutenção do status quo, e não pelo respeito ao ser humano. E eu gosto das relações quentes e francas, não das frias e cifradas. No entanto... No entanto deveríamos pensar se o que vamos dizer ou fazer aos outros despertará um sorriso, trará um bem, suscitará beleza, proporcionará descobertas, subirá aos céus, culminará na revolução. Ou então, talvez possa esperar.

Estou lendo Carl Rogers, um psicólogo cujo livro me caiu nas mãos e seria uma história comprida explicar por que me interessei por ler. Acabei não lendo psicólogos na vida. De Freud alguma coisa há uma década. Da linguística na faculdade de Letras, Lacan virou fumaça no fundo do meu cérebro, e o Chomsky nem era psicólogo, ou era? Bom, estou lendo este. E ainda não achei nada muito interessante do ponto de vista da compreensão radical, crítica ou social do ser humano. O sujeito está interessado em descobrir como se estabelecem relações de ajuda, e se e como a terapia funciona. Ele acha que funciona. E que funciona pela aceitação. Que ao terapeuta cabe aceitar o cliente (ele diz cliente), o qual acaba por aceitar-se em suas múltiplas faces não congruentes, e assim permite-se ser, e em sendo se transforma. Muito autoajuda?... Meio hippie?... Estou gostando. Tem feito sentido neste momento da minha vida.

Talvez esteja aí a delicadeza: ser precariamente, deixar ser precariamente, porque a plenitude só está no horizonte, mas pelo menos está lá.

E porque há quem fale de delicadeza muito melhor do que eu:


sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

take it easy


minha querida
a velocidade dos seus quereres
supera
a capacidade dos meus fazeres


domingo, 29 de dezembro de 2013

Um viva à livre circulação


Em julho, quando percorremos vários milhares de quilômetros para conhecer a belezura da Chapada das Mesas, realizando um circuito que atravessou os estados de São Paulo, Goiás, Tocantins, Maranhão, Piauí, Baía, Minas Gerais e Rio de Janeiro, Teresa voltou de viagem sabendo falar "mamão" e "Maranhão".

Neste Natal, demos um pulinho aqui no interior de São Paulo para visitar a família. Na volta, mais ou menos em Caieiras, Teresa soltou a nova palavra aprendida na viagem: "pedágio".

(p.s.: este não é um post patrocinado, e eu juro que a história é verdade...)

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Kiwi e o mundo lá fora


Eu nunca gostei de kiwi. Me pergunto quem foi o primeiro ser humano a ter a ideia de abrir aquela bolinha peluda para ver se era bom de comer. E achou que era, a despeito da polpa aguada e das irritantes sementinhas crec-crec (também não gosto das do maracujá). Não, obrigada, posso ter minha parte em manga?  Daí que nunca houve kiwi na minha casa, nunca pedi no restaurante, nunca peguei no bufê de café da manhã do hotel. Pois um belo dia eu pergunto à minha filha o que ela quer comer, e ela responde "Ií". Hã, kiwi? Não tem kiwi, filha... E num outro dia, olhando a fruteira da casa de uma amiga, a menina me arregala os olhos com um sorriso de orelha a orelha e aponta: "Ií!". De onde veio isso, jizuis?!...

Antes que me venham com respostas místicas, já respondo: veio da escola. Uma das coisas legais da escola da Teresa é o lanche coletivo, cheio de frutas e comidinhas bacanas, que eles compartilham sentados à mesa. E lá ela conheceu a frutinha peluda que nunca passou pela minha porta. E foi por conta de um desses episódios do kiwi que me dei conta (da obviedade) de que a escola é um local para ampliar horizontes, encontrar coisas novas, conhecer aquilo que... não sou eu, ops!

Talvez este seja o aprendizado mais fundamental e mais difícil da condição de mãe (e pai, também, na sua medida, imagino): saber seu filho como outro, entender a presença nova que ele significa no mundo, e permitir que ele aprenda a se ligar a esse mundo com seus próprios recursos. O pediatra de uma amiga lhe disse, no momento em que se aproximava o fim do aleitamento exclusivo de seu bebê: está na hora de apresentar seu filho às cores do mundo.

Sempre que eu olho para os ombros de minha filha, desenhados pelo mesmo pincel que pintou seu pai, me lembro de que ela não é minha. Ela só existe porque minha história se entrelaça com outra história. Ela é parte de uma história nossa. E o kiwi veio me ensinar que a cada dia ela constrói mais um pedacinho de uma história sua.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

E se nos obrigassem a comer?


Já ensaiei várias vezes escrever aqui alguma coisa sobre alimentação e alimentação infantil, porque pensar na introdução alimentar da minha filha (e realizá-la) me fez refletir sobre tanta coisa, das mais diretamente relacionadas até outras que podem ser uma viagem... Mas justamente por isso acho que nunca consegui achar um foco para puxar o texto, que portanto nunca saiu.

Comecei a pensar sobre como seria a introdução alimentar da Teresa muito cedo, as pessoas até riam de mim... Tenho algumas teorias sobre por que esse assunto me tomou tanto, mas agora não vêm ao caso. Doida atrás de materiais de referência mais interessantes do que listas de horário de papinhas e truques para fazer seu filho comer verdura, descobri o Carlos González, um pediatra catalão genial que coloca em questão a própria pediatria e toda a montanha de chavões sobre a infância repetidos por aí em nome da ciência. E o homem ainda tem um texto leve e engraçado.

Difícil encontrar seus livros em português, mais ainda português do Brasil. A gente acha fragmentos traduzidos informalmente aqui e ali, em sites sobre infância e maternidade. Não sei dizer bem quais de seus livros têm tradução publicada em português, mas Mi niño no me come, que fala mais especificamente sobre alimentação infantil, não encontrei traduzido.

Então semana passada recebi uma amiga que começa a se preocupar com a passagem de sua filha para o mundo além-peito. E ela veio comentar comigo sua impressão de que as crianças que são deixadas livres para comerem sozinhas – prática adotada aqui em casa bem freestyle, acreditando eu que se tratava apenas da opção mais simples, menos intervencionista e mais “natural” (eu sei, eu sei, palavra péssima...), e que depois essa mesma amiga me revelou que já foi catalogada e rotulada com o pomposo nome de baby led weaning (tem até sigla: BLW!) – comem menos. Rsss... Os avós de Teresa não se cansam de fazer essa observação, e ficam numa felicidade só ao sentá-la no colo e vê-la aceitar de bom grado as colheradas de almoço ou os nacos de fruta... Até eu, que certamente sou mais boba que minha filha, acho bom se de vez em quando alguém vier me mimar com pedacinhos de queijo prontos para degustação, uvas já tiradas do cacho, garfadinhas de amor na minha boca, hã? Mas ceder o controle do meu prato o tempo todo certamente me irritaria!

Confesso que eu também tenho essa impressão de que comendo sozinhas as crianças comem menos. Mas o que importa é: por que a gente quer que elas comam mais?! Ah, por vários motivos, dos mais aos menos neuróticos, penso. Eu também não estou livre da coisa, tenho que me controlar, também quero que ela coma só mais uma colheradinha, filha, a última... Pois González parte justamente dessa preocupação de que a criança não come o suficiente – preocupação que segundo ele dá mais que chuchu na cerca na cabeça das mães contemporâneas –, para discorrer sobre as implicações éticas e práticas de obrigar crianças a comer (e ele inclui aí os truques para “obrigar” de mansinho, também), sobre os fundamentos científicos que sustentam (ou não) as práticas de alimentação infantil que adotamos hoje, e – o mais legal – sobre o momento histórico em que essa preocupação de que a criança coma mais se generaliza, se consolida e vira inclusive uma questão para especialistas. Não foi sempre assim, sabia? Eu não sabia... Até o século XIX, a preocupação era que as crianças pequenas não comessem demais, quem diria! (A chave está no advento da indústria de leite em pó, claro.)

Para encerrar seu livro, o autor escreve um epílogo chamado “E se nos obrigassem a comer?”, um conto que satiriza nosso desejo de poder e controle sobre a criança – questão sempre presente em seus textos, pelo menos os que li. Já que as editoras não publicam o livro, faço aqui mais um exercício de tradução. Eu ia adorar traduzir as obras completas do homem.


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O dever da Brigada Nutricional

O sol brilhava no alto de um céu sem nuvens, e o ar trazia o cheiro de grama recém-cortada, quando Edmundo Tavares decidiu entrar no Carpa Dourada, um restaurante agradável e não muito caro. De sua mesa, Edmundo tinha uma bela vista do parque e das magnólias em flor. Bom observador da natureza humana, ele preferiu, no entanto, sentar-se de lado, voltado para o interior do restaurante.

A clientela era tão variada quanto fascinante. Em frente a ele, um indivíduo gordo e suado comia veloz e ruidosamente, parando apenas para tragar incríveis quantidades de vinho barato. Por alguns segundos, Edmundo acompanhou como em sonho os movimentos de sua papada, uma massa esbranquiçada e ondulante como duna de finíssima areia. Não era certamente um espetáculo para entreter alguém por muito tempo, e Edmundo logo ignorou seu rechonchudo parceiro para observar uma jovem muito delgada, quase etérea, na mesa ao lado. “Delgada, quase etérea... meio cafona”, disse consigo mesmo. Quantas vezes lera essa descrição em algum livro, e “etérea” associava-se em sua mente a um matiz filosófico ou religioso, talvez sobrenatural. Agora, vendo aquela menina pálida, o olhar perdido em sabe Deus que estranhas reminiscências frente ao prato de macarrão quase intacto, compreendeu que “etérea” tinha aqui um significado muito mais terreno, simplesmente incorpóreo no sentido de não ter corpo, como naquela piada de seus dias de escola: “Anda mais magro que a radiografia de um suspiro”.

No centro do salão, junto à carpa dourada que dava nome ao local, um grupo de executivos impecavelmente vestidos (embora a mulher se distinguisse por não usar gravata) discutia acaloradamente sobre estatísticas e documentos que quase escondiam os pratos e os telefones celulares. Edmundo sorriu, pensando nos preciosos contratos manchados de tomate e gordura. Mas não, são profissionais, claro que podem ler um relatório em cima de uma saladinha de batatas sem o menor acidente.

Mais além, num canto discreto, um casal de noivos entreolhava-se feito bobos, com as mãos entrelaçadas sobre a mesa. Então agora retornam a entrelaçar as mãos sobre a mesa... que voltas o mundo dá! Ou foi sua geração que teve poucas oportunidades de entrelaçar qualquer coisa em outros lugares? Será que estou ficando velho?, pensou, lembrando-se de outras mesas, outras mãos.

Não era fácil perder-se em devaneios, pois a todo momento o chamavam de volta ao mundo as risadas e gritos de um ruidoso grupo de estudantes, numa mesa logo atrás. Olhou-os de soslaio, discretamente. Eles faziam piadas, barulhentos, despreocupados, sem ligar para convenções sociais ou para o medo do ridículo. Como sempre ocorria quando observava um grupo de jovens, ele teve a impressão de ver um rosto conhecido, descartando em seguida a ideia ridícula: não, eles também teriam agora quarenta anos.

Tinham acabado de lhe trazer a salada, quando um silêncio denso e frio se espalhou pela ampla sala de refeição, como ondas em um lago. Os temidos uniformes pretos da Polícia Nutricional rapidamente tomaram posição. Ele não os viu chegar pelo parque, com certeza tinham entrado pela porta dos fundos. Eram meia dúzia de agentes, comandados por um tenente muito jovem e bem composto. Esses oficiais recém-saídos da academia, rigidamente severos e ansiosos por justificar seus galões, eram sempre os piores. Até seus próprios homens estavam atemorizados. Não deixariam passar nada.

Uma agente de meia-idade dirigiu-se rapidamente para a mesa dos executivos. Eles não tiveram tempo de guardar seus contratos e relatórios, que foram bruscamente apreendidos. “Mesa não é lugar de brincar!” O mais jovem tentou esboçar um protesto, mas a mulher o deteve com um gesto imperioso. Qualquer resistência era inútil. Se mostrarmos total submissão e comermos sem reclamar, talvez nos devolvam os documentos depois da sobremesa.

Os gracejos cessaram na mesa dos estudantes. Uma prisão como maus comedores poderia significar a desonra de suas famílias e a expulsão da universidade. Comiam muito eretos, em absoluto silêncio, levando ritmadamente à boca o garfo ou a colher. Será que estavam eretos demais, ou comiam excessivamente em uníssono? Os braços subiam e desciam com precisão coreográfica. O agente que os observava tinha uma vaga suspeita de que estavam zombando dele, entretanto por mais que se esforçasse não conseguia encontrar nada de decididamente ilegal na atitude dos rapazes, então resolveu dar as costas e ignorá-los. Várias pessoas nas mesas vizinhas reprimiam um sorriso de aprovação: talvez no fim das contas esta juventude valha mais do que parece.

Ouviram-se gritos vindos da cozinha. Em todos os restaurantes as equipes apressavam-se em sumir com qualquer resto de comida pelo ralo, mas desta vez a inexperiência de um dos ajudantes permitiu que a PN encontrasse um prato com meia porção de canelone. As leis que proibiam deixar comida no prato eram implacáveis​​. O proprietário se desmanchava em explicações.

– Sempre cumprimos as regras, vocês sabem. O cliente se recusou a terminar e fugiu, não tivemos como evitar. Ainda não houve tempo para preencher o formulário de denúncia, precisamente por isso guardamos o prato. Temos de fotografá-lo para registro... Mas estamos limpos, olhem o cesto de descartes, vaz...

Com um gesto dramático, o proprietário mostrou o cesto, e as palavras morreram em seus lábios. Restos de guisado! O novo lavador de pratos tinha cometido outro erro, e este poderia ser fatal. O sargento os fuzilou com os olhos, exigindo uma explicação. Antes que alguém conseguisse sair da paralisia, o funcionário se adiantou, tremendo:

– Tive de jogá-lo fora, pois deixei um prato cair no chão. Mas não quebrou.

– Comida não se joga fora! – rugiu o proprietário. – Outro erro e você está demitido.

Em seguida, voltando-se para o misericordioso sargento:

– É novo; é cada vez mais difícil encontrar funcionários bem preparados.

Mas ele não deixou de notar, satisfeito, a rapidez do rapaz em consertar seu próprio erro e inventar uma desculpa. Naqueles tempos, sempre sob a ameaça de ver o restaurante expropriado e colocado sob controle direto da PN, a astúcia e o reflexo rápido eram qualidades valiosas.

Edmundo Tavares não perdia nenhum detalhe do que se passava no salão, sem deixar nem por momento de prestar uma atenção aparentemente total em sua salada. Ficou satisfeito com sua escolha: uma refeição leve, mas que estranhamente sempre contava com a aprovação da PN. Os nutricionais são fascinados pelo verde. Os dois pombinhos tinham soltado as mãos imediatamente, mas não conseguiam evitar um olhar encantado de vez em quando. A agente que fora tão severa com os executivos parecia agora inclinada à condescendência, mas um olhar frio de seu tenente lembrou-a de seu dever. Postou-se junto à mesa e começou a marcar o ritmo com voz estridente.

– É para comer e ficar quieto! Colher no prato, colher na boca, uuuum, doooois, colher no prato, colher na boca, uuuuum, dooooois.

O gordo sentado em frente a Edmundo estava muito nervoso e olhava os policiais com ávida dissimulação. “Está tentando ver as insígnias”, logo percebeu. “Deve ser meio míope.”

Os nutricionais SS (Super Sebo) exigiam um peso superior à média, e quanto mais alto melhor; mas estavam sempre em conflito com os nutricionais SA (Sempre Atléticos), para os quais o peso ideal estava entre os percentis 25 e 75. Em consequência dessas lutas internas ao regime, a vida dos indivíduos com peso acima do percentil 75 ou entre os percentis 25 e 50 tornara-se bastante difícil. Mas não tanto quanto a dos infelizes que estavam abaixo do percentil 25; a maioria tinha conseguido se exilar antes do fechamento total das fronteiras.

Desta vez eram nutricionais SS, e o gordo tranquilizou-se, sabendo-se seguro. E foi além, atrevendo-se a dar um passo sempre arriscado:

– Garçom, esta perna de cordeiro estava excelente. Poderia repetir?

O desagrado do garçom era evidente, mas ele não tinha escolha. Com a PN SS no local, a repetição estava garantida. O proprietário em pessoa trouxe, sorrindo, a nova porção. Mas a vingança foi sutil: o prato estava completamente cheio. O gordo empalideceu ao vê-lo; queria apenas “mais um pouquinho”, mas aquilo era demais. E deixar algo que ele mesmo tinha pedido era o pior dos crimes.

Quando o proprietário se arrependeu, já era tarde demais. O objetivo do homem, percebeu ele, não era aproveitar-se da situação, mas apenas proteger-se. Perseguidos pela SA, a única salvação dos obesos era ter amigos na SS. Subitamente envergonhado, tentou oferecer uma saída:

– Desculpe, senhor, mas acabou nosso pudim com creme – murmurou cordialmente. – O senhor terá de pedir outra sobremesa. Sugiro um suco de laranja.

– Tudo bem – respondeu o obeso, e podia-se ler a gratidão em seus olhos.

Talvez assim conseguisse terminar a perna de cordeiro. E aplicou-se a ela.

O tenente estava agora ao lado do aquário.

– Por que esse peixe não está comendo?

– Acabou de comer – desculpou-se o proprietário –, mas não importa.

Pegou um pouco de comida para peixe num pacote e jogou na água. A carpa se apressou em devorar a ração.

– As carpas têm sempre um espacinho vazio. Por isso as escolhi como símbolo do meu estabelecimento.

O tenente quase sorriu. “Foi uma boa ideia comprar a carpa”, pensou o proprietário, esperando que o incidente do guisado no lixo fosse totalmente esquecido.

Mas o olhar frio do tenente estava cravado na jovem esguia. O silêncio tornou-se ainda mais ameaçador. Não só parecia estar abaixo do percentil 25 (os enchimentos da roupa de baixo não conseguiam esconder a magreza das bochechas), como seu prato estava muito cheio, e ela comia com desesperadora lentidão. Mesmo àquela distância, Edmundo podia dizer que a menina suava, e ele parecia ouvir as batidas de seu coração.

Depois de contemplá-lo por alguns segundos eternos, o tenente fez um gesto para um dos policiais, que se aproximou decidido.

– Venha, coma um pouco, está muito bom. Assim, muuuuito bem. Você precisa crescer, colocar um pouco de carne nesses ossinhos. Vamos, outra colheradinha, iiiisso, fica tão linda quando come. Está cansada, meu amor? Eu te ajudo, me dá o garfo. Olha o aviãozinho, brrrrrr brrr! Um avião de macarrãozinho para a minha menina! Muito bem! Olha, um passarinho na janela, que passarinho lindo. Viu como abre o biquinho? Muuuito bom, um pouquinho mais. Agora mais um pouquinho paaaara a vovó, e este outro pouquinho paaaara o papai... Venha, não vamos deixar esse macarrãozinho tão gostoso. O cozinheiro preparou com taaaanto carinho. Isso, muito bem, falta pouco. Não quer ir ao cinema mais tarde? Então primeiro tem que terminar a comidinha, para ficar fooorte. Ai, que linda, como come a minha menina!

Lenta, penosamente, o macarrão foi desaparecendo, então o agente da PN passou o pão no molho e enfiou na boca da mulher apavorada. Agora falta o bife com batata! Edmundo, como muitos outros clientes do restaurante, prendiam a respiração. Era evidente que ela não conseguiria terminar o segundo prato.

O garçom trouxe a carne. Ele serviu o menor bife possível e a quantidade mínima de batatas, e lançou para a jovem um olhar de cumplicidade. Ela só conseguiu esboçar um sorriso de agradecimento; a porção ainda estava bem acima de suas possibilidades, e o garçom sabia disso. Mas não podia se expor mais; em várias ocasiões, a PN já havia mandado pesar porções suspeitamente pequenas.

O agente cortou a carne em pedacinhos minúsculos, e retomou sua interminável ladainha. Mas as colheradas eram cada vez mais penosas, e cada vez mais palpável o terror de um e a cólera do outro. Edmundo, como os outros clientes, tentava concentrar-se em seu próprio prato, no ritmado vai e vem do garfo. Não ver, não ouvir, não pensar. Simplesmente sobreviver. Quantas vezes Edmundo sonhara com um gesto heroico, um arrebatamento de dignidade; levantar e gritar: “Deixe a menina, deixe-a em paz”. Em vez disso, teve de engolir sua própria covardia e escutar o que o policial dizia à mulher:

– Está vendo como come esse senhor? Ele sim é bem comportado! Vamos lá, você tem que ficar grande, como esse senhor!

A jovem, com o olhar perdido no vazio, abria e fechava mecanicamente a boca, enquanto duas lágrimas caíam sobre uma das bochechas que inchava perigosamente. “Faz tempo que não engole”, pensou Edmundo. De repente, com um ruído estremecedor, mescla de tosse e náusea, a mulher deixou cair uma bola de carne ressecada e dolorosamente mastigada.

– Tenente, ela está fazendo bola!

O oficial se aproximou decidido. Uma sonora bofetada quebrou o consternado silêncio. Acabou, pensou Edmundo, acabaram os aviõezinhos e as palavras amáveis. Não havia piedade para os terroristas do BOLA (Bloco de Oposição pela Liberdade de Alimentação). Ele sabia o que estava por vir: iam obrigá-la a engolir a bola repugnante e todo o resto da carne. Abririam sua boca à força, afundando com dedos de ferro as bochechas entre seus dentes, de modo que ela se morderia ao tentar fechá-la. Iam obrigá-la a comer até vomitar, vomitaria sobre o prato e a fariam comer seu próprio vômito. Edmundo fechou os olhos, angustiado, inspirou lenta e profundamente, tentando não vomitar ele também enquanto escutava os gritos de terror da jovem:

– Não quero mais! Não quero mais! Não quero mais!

Edmundo se forçou a abrir os olhos. Escuridão. Então percebeu que tudo tinha sido um sonho. “Que sonho ridículo”, pensou. “Polícia Nutricional. Quem poderia pensar numa coisa dessas?”. Mesmo assim continuava suando, agitado. Parecera tão real. Especialmente aquele último grito.

– Não quero mais! Não quero mais!

De novo! Estava ouvindo! O terror arrepiou sua espinha. Mas não, não era sonho. Era sua filha Vanessa, de dois anos, que no cômodo ao lado gritava sonhando. Que estranho, será que tivemos o mesmo sonho? Não, claro que não, ela deve estar acordada. É isso, eu é que devo ter gritado dormindo, e ela está repetindo para chamar a atenção. Essa...! Realmente, essas crianças são umas espertinhas. O médico bem avisou, quando nos explicou como ensiná-la a dormir, que ela tentaria todos os truques para nos atrair ao seu quarto à noite. Mas eu não vou, claro que não. Ela precisa aprender a dormir sozinha, chega de fazer a gente de bobo.

Aliás, um dia desses vamos ter que falar com o médico sobre a comida. Come cada vez menos, e ainda por cima começou a fazer birra. Alguma coisa vamos ter de fazer com essa menina.


GONZÁLEZ, Carlos. Mi niño no me come. Consejos para prevenir y resolver el problema. Madri, Temas de Hoy.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Cinderela


Fitou o espelho e admirou por um instante seu porte de porcelana. A linha da cabeça, sempre.

O conhecido movimento para alcançar a fita da sapatilha, e de súbito uma trajetória ligeiramente inusual da ponta de gesso libera um estalido que rasga a sala. A mão que passava já à fita termina de soltá-la mecanicamente.

A bailarina observa o pé liberto e olha estupefata os cacos que a refletem. Como fizera aquilo?!

Abandonando a sapatilha fatídica, levanta-se e desce correndo as escadas, embrenha-se pela rua. Os cabelos parecem saber, e soltam-se dos grampos sempre inescapáveis.

Surpreendentemente ofegante, bailarina que é, desaba sobre um banco. A planta do pé descalço acaricia a grama que o pinica.

Ao rapaz que passa pede um cigarro. Gostaria de levar em troca uma sapatilha de ponta? Ele sorri, segura-a pela fita e guarda ali o meio maço de cigarros amassado, enquanto se afasta.

Só, ela olha a praça e sente com atenção o vento gelado que lhe varre as bochechas. É bom.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Minha Mãe que Disse


Nunca pensei neste espaço como um blog de maternidade. É um caderno de escritos compartilhados, porque escrever é se autoconstruir, e compartilhar deixa a gente menos esquizofrênica, eu acho.

Mas é bem verdade que esse tema anda muito aqui, e eis que o portal Minha Mãe que Disse viu meus escritos e me convidou para escrever por lá. Instigada pelas preocupações deuma amiga recém-mãe, escrevi alguma coisa sobre amamentação. Quem quiser dar uma olhada, vai lá: http://minhamaequedisse.com/2013/10/o-corpo-e-a-alma/.



O corpo e a alma

Sempre achei que amamentar seria esquisito para mim. Claro que aí entram as minhas loucuras mais particulares, mas acho que esse receio ou dificuldade em relação a se sentir confortável na amamentação não é só meu. Para falar disso, poderíamos começar uma reflexão sobre o quanto a amamentação está ausente, como prática social, do nosso imaginário, dos nossos referenciais. Onde estão as mulheres amamentando? Eu não me lembro de vê-las com muita frequência, nem na minha família, nem na rua, nem na novela... Mas de vez em quando penso nelas figurando em críticas ou piadas. Apesar do incentivo oficial ao aleitamento materno exclusivo e prolongado, na prática nós temos de enfrentar diversos constrangimentos e tabus para implementá-lo.

Essa reflexão me parece inteiramente pertinente, e sugere uma linha de militância pró-aleitamento com a qual simpatizo. Mas, levada ao limite, seria como dizer que, se não fossem os preconceitos e tabus em torno da amamentação – ou seja, certas limitações e constrangimentos externos –, os receios ou desconfortos a seu respeito não existiriam. E eu acho que não é bem assim. Tem alguma coisa aí que vem de buracos que ficam mais embaixo...

Bom, eu e minhas pequenas loucuras. Uma coisa que me preocupava era como eu ia processar a relação entre meu bebê e uma parte tão erotizada do meu corpo. Essa maluquice de a gente estabelecer uma cisão absoluta entre filhos e sexo. Além disso, achava que não ia me sentir bem amamentando em público. Quando uma amiga, recém-mãe, me perguntou por quê, respondi com a maior simplicidade do mundo: pelo mesmo motivo que eu não faço topless... (Claro que não vai aqui nenhuma crítica a essa prática, já é bom falar, eu apenas quis dizer que a nudez pública do peito não era algo confortável para mim...)

Mas eu fiquei grávida, minha filha nasceu, e eu descobri que esses sentimentos sobre o corpo simplesmente mudam. Bem, mudaram para mim. A libido vira energia e ternura para cuidar do bebê. O peito cheio – vazando! – transforma qualquer erotização na necessidade de fazer o leite fluir, a vida fluir, marcada pelo ritmo novo do dorme e acorda do bebê. Descobri então que a resposta um dia dada à minha amiga era um tanto absurda, porque o peito que faz topless não é o mesmo que amamenta.

Ainda assim, a vontade de preservar a privacidade do corpo pode permanecer. E para isso existem recursos convenientes, como sutiãs, blusas e capas de amamentação, fraldinhas sobre o peito. No começo eles me pareceram ótimos e foram úteis, mas aos poucos fui achando que respondiam mais a um suposto pudor alheio que ao meu, e acabavam me atrapalhando, então fui deixando de lado.

Há quem sugira, como resposta a essa preocupação com a privacidade do corpo, o recolhimento da mulher que amamenta. Pois amamentar é um momento íntimo e especial, a ser vivido no aconchego do ninho e longe dos olhares alheios. Ok, se assim a mulher desejar. Se não for um recolhimento penoso, uma solidão indesejada. Se for um recurso, e não um inconveniente. Para mim não serviu. Eu vou ao bar com meus amigos, bebê mamando.

Mas o que fui percebendo, e para mim foi uma grande descoberta, é que ficar à vontade com a condição de mulher que amamenta é um processo que se dá junto ao de construir nossa nova condição de mulher que é mãe. Ao contrário do que podem dar a entender as frases feitas e as propagandas de fralda ou de margarina, tornar-se mãe inclui um processo de reestruturação emocional e redefinição de nossa identidade nem sempre confortável. E nesse pacote está a relação com o corpo e a amamentação.

Quando usamos nosso primeiro sutiã ou nosso primeiro absorvente, eles podem incomodar. E parece que todo mundo está olhando. Com o tempo, aprendemos a escolher o sutiã mais adequado, elegemos nossa marca de absorvente, e vemos que ninguém está nem aí para a nossa puberdade. O absorvente pode até incomodar, mas no final das contas o difícil mesmo é sair da infância e construir essa nova pessoa que não é mais criança e ainda não sabe o que é.

O constrangimento ou o desconforto em amamentar, em público ou não, tem algo do desajeitamento de quem está aprendendo a ser alguma coisa mais do que já era, a lidar com um corpo novo e uma nova autoimagem. A se colocar no mundo mais uma vez, em um outro lugar. E se para isso você precisa de um quarto à meia luz, acenda o abajur. Se precisa cobrir o peito, acomode seu bebê sob um paninho acolhedor. Se precisa do seio livre e desimpedido, mande o pudor alheio às favas. Porque você está colocando duas pessoas novas no mundo, e merece toda a ajuda possível.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Pastichando



Domingo de pão

Era sempre igual, tanto o pão como o ritual.

Primeiro ela tirava a aliança e colocava em algum canto da cozinha. Não vá a massa entranhar os pequenos brilhantes da única joia. (Às vezes, depois de tudo, um ligeiro pânico de perdi a aliança. Estava sempre lá; onde mais estaria?)

Nunca podia ser feito com verdadeiro sossego, pois logo íamos espiar o processo, perguntando. Minha mãe bem que gostaria desse sossego. Ela gosta de se mover só e concentrada, livre, na cozinha. Mas nós queríamos meter as mãozinhas: era mais fácil nos dar o que fazer, e acabávamos invariavelmente untando a forma. A tarefa das crianças.

A receita não lembro. Se iam ovos, leite? Lembro da farinha espalhada pelo mármore. Acho que herdei dela essa expectativa de que toda casa tenha uma grande superfície livre, uma bancada, uma mesa enorme. Pouco importa o tamanho da família.

O pão era sempre moldado como um falso rocambole, enrolando-se a massa nela mesma. Deixa crescer enquanto a bolinha sobe. Era absolutamente fascinante: a pequena bolinha de massa, que podíamos ajudar a enrolar e colocar no copo com água, de repente subia, e então era hora do forno. Não havia explicações sobre a densidade do ar e da água, era pura mágica. A mãe dela usara a bolinha no copo por toda a vida, e ela também fazia assim. Funcionava.

Ainda demora? Já sabemos, pão sempre demora. Mas a entrada no forno acionava inexoravelmente a ansiedade do pão quase pronto. E ninguém precisava nos avisar que ficou pronto, pois o cheiro entrava por cada cômodo e transbordava para o quintal, mais eficiente que sirene de refeitório. Cheiro de pão quente.

Enfim a manteiga derretendo sobre a fatia fumegante, amornada apenas o mínimo necessário para nossos dedos. Dizem que pão quente faz mal. Para nós, era puro deleite.