terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Streaming


Uma amiga retruca, sobre minha tentativa de salvar um parágrafo que odiamos: mas isso quem está dizendo é você, não está aqui.

Ocorre que já não sei se alguma coisa do que eu vejo em algum lugar está lá ou está em mim.

Quando vi Capitão Fantástico me irritou tanto não encontrar uma brecha ali por onde eu pudesse entrar que tive de parar de assistir, fazer uma sessão de terapia, ficar grávida e depois ver o resto.

Assisto a Mad Men e penso: é uma série sobre mulheres. Especialmente sobre Sally.

Atravesso todo aquele uísque e fumaça e decido: é uma série sobre mulheres e crianças.

Uma série sobre mulheres muito privadas e crianças muito expostas.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

para ana


a vida é um sempre sempre se buscar.

eu fiquei adulta no dia em que perdi meu filho que não existia. então passei meses perdida, feia e triste, até conseguir me colocar de novo dentro de mim. quando teresa nasceu nenhuma roupa me servia mais, e todas elas eram do meu tamanho. e eu infernizei os móveis todos da casa e as plantas e as comidas, procurando por mim. quando quis isabel fui procurar no armário, porque todas as roupas acumuladas da mãe que eu era estavam ali e eu precisava jogar fora pra ser mãe de novo outra. quando ganhei isabel, perdi teresa pequena que em uma noite cresceu vinte centímetros e eu não tinha lembrado de me despedir nem dela nem de mim. agora isabel vai à escola puxando a mochila de rodas e eu vou me buscando na trilha de lágrimas com saudade das borboletas mas eu não sou mais elas.

que bom que você escreve.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Descobertas



Para alimentar minhas filhas, eu reaprendi a cozinhar.

Eliminei os temperos prontos e aprendi a temperar muito bem a comida, para acolher a todos nós.

Aprendi a preparar legumes e verduras de acordo com aquilo que eles são: comida gostosa.

Aprendi a fazer pão, fermento, iogurte, ricota, manteiga, porque é bonito fazer mágica na cozinha e as crianças merecem apreciar.

Entendi que caldo de legumes é água fervida com legumes, e congela muito bem. Dá gosto em tudo e acalma preocupações maternas sobre nutrientes. Arroz cozido no caldo de legumes não é só arroz.

Aprendi que comida picada faz muito, muito sentido. Pedacinhos disponíveis, que se pegam com a colher, com o garfo, com a mão. Que se misturam com todo o resto ou se separam de todo o resto, segundo a vontade da mãozinha naquele dia.

Entendi que risoto é uma fórmula mágica para dias difíceis, e não comida de restaurante.

Me reconciliei com comidas abandonadas após a infância: sopa, arroz mexido com mistura numa panela só. Variações infinitas.

Para alimentar minhas filhas, eu reaprendi a comer.

Agora parece que sempre foi assim.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Inspiração


Uma vez, na terapia, em uma sessão na qual eu estava muito cansada e particularmente tagarela, a terapeuta aproveitou um meu intervalo, olhou nos meus olhos e disse: "Carol, do que você precisa?"

Magicamente, aquela pergunta suspendeu minha falação destampada e me devolveu a mim mesma. A despeito da pertinência da nuvem de reflexões e sensações dentro da qual eu me movia ali, naquele momento eu precisava de algo muito simples e muito específico. E eu sabia o que era.

Aprendi a fazer isso com Isabel quando está muito cansada ou ansiosa e pede uma coisa atrás da outra incessantemente. Olhos nos olhos: "Do que você precisa?"

Terrible twos nada... É que a gente vive perdido.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

bendito é o ventre


vi isto ontem. não é ser gorda ou magra, o problema é a silhueta. a barriga proeminente. pareço grávida.

tem um bebê na sua barriga?

vergonha.

aprendi a vergonha do meu ventre de mulher.

escrevo para desaprender.

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Gente

 
Eu não tenho muito timing. E ainda não fui ver outro filme. E ainda tem gente falando de Bacurau ao meu redor. “Bacurau” que pra mim era um peixe mas descobri que é uma ave.

Quando eu disse do meu choque pois sou a motoqueira, as pessoas riram simpáticas e complacentes. Me conforta. Veja bem, eu sei que não sou a burguesia nacional que pensa que é branca. Mas eu também não sei bem onde cavar. Aquele filme é sobre a força que tem quem sabe onde cavar. E sobre a tragédia de quem acha que não precisa.

Entre outras coisas, pois não é cartilha. Eu acho. Mas a gente quer cartilha. Porque a gente segue a cartilha. Resistência popular! A gente denuncia a cartilha. Incitação à guerra civil! Mas não cava.

Oras.

A banalidade do massacre. Não é 1960. Passamos historicamente do exército de reserva para a população sobrante. Não é exploração, não é controle da rebelião social, é massa desumanizada a ser gerida ou exterminada, o que der. Os livros de geografia falam que as cidades asiáticas são formigueiros. Foto do alto. As cidades asiáticas. Manhattan não.

E aquela abertura cafona. Fica a voz da Gal Costa me perturbando até hoje e eu penso “Tão lindo aquilo lá”. Os pontos luminosos lembram minhas viagens de infância quando eu via as luzes das cidades ao longe. As luzes de um vilarejo transmutadas nas luzes do mundo inteiro. É uma brincadeira com escalas linda.

Borrar a distinção das escalas. Evocar a simultaneidade como aspecto essencial do espaço-tempo do capital. Não tem cidade pequena, média e grande. Não tem país subdesenvolvido, em desenvolvimento e desenvolvido. Não tem etapa rumo ao equilíbrio. O que tem é uma lógica, uma, que produz o vilarejo e o mundo inteiro. Uma lógica que sustenta e é sustentada pela existência simultânea da civilização e da barbárie.

População sobrante não é gente. Quem nasce em Bacurau é o quê?
 

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Contar


Faz dois anos que Isabel nasceu. Faz dois anos que eu queria contar essa experiência inadjetivável que foi parir uma criança. Contar é uma forma de entender.

Logo depois do parto eu ficava constantemente pensando "Por que eu fiz isso?"

E na minha avó, minha avó, minha avó.

Minha avó passou quinze, vinte anos grávida. Grávida e parindo. Grávida e parindo. Sem escolha. Grávida e parindo.

Minha mãe não pariu. Minhas tias não pariram. Como poderiam?

Eu pude.

Mas ainda não sei contar.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Psicodelia brasileira


Acho que a última vez que eu tinha ido ao cinema ver um filme que não era voltado ao público infantil foi em 2012, quando minha primeira filha ainda era bebê. On the road. É isso: a vida engole a gente.

Por alguma razão, decidi dar um jeito de ver Bacurau no cinema. Procurei minuciosamente o ponto da minha agenda onde dava pra encaixar, abri o guia de cinema e selecionei o local e horário que possibilitavam a logística. Cinema de shopping center, um chique.

Só quando cheguei lá me dei conta de que era na sala VIP do complexo. Não desisti porque, veja bem, desde 2012.

Assisti Bacurau instalada em uma macia poltrona reclinável da sala VIP de um shopping chique no meio dos Jardins, ao lado unicamente de um casal: um senhor e uma senhora devidamente reclinados ao longo de todo o filme.

Terminada a sessão, saí da sala atordoada. Mesmo. Atônita, com a respiração descontrolada, fiquei dando voltas pelo shopping e olhando aquelas pessoas que não podiam ser reais. Nem eu. Eu andava, chorava e ria ao mesmo tempo, em meio àquelas vitrines absurdas fluidas brilhantes e aquelas pessoas improváveis sorridentes muito luminosas.

Escrevendo mensagens no celular para duas amigas, porque eu precisava de alguma ancoragem no real.

Uma delas, a pessoa mais gentil que eu conheço, disse que fiquei assim porque tenho uma grande capacidade ser impactada pela arte.

Mas não era isso.

É que eu sou a motoqueira.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Gozo


A maternidade é um lugar de profundo  prazer. Amamentar é um ato de profundo prazer.

Isso não tem nada a ver com romantizar a maternidade.

Trata-se de acolher a complexidade da experiência materna.

Trata-se de reivindicar o direito ao gozo contido na realização do que é humano.

Denunciemos incansavelmente a sobrecarga do trabalho reprodutivo. Lutemos contra ela com toda a nossa ira.

Mas não deixemos escapar o gozo que nos é de direito e que habita nossos corpos. Corpos de mulheres. Corpos de mães.

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Tesouros


Minha avó paterna espalhava tesouros pela casa.

Bastava erguer a tampa das dezenas de potes distribuídos pelo apartamento para encontrar balas soft cortadas ao meio prontas para comer sem engasgar. Abrindo latas de biscoito, encontrávamos torradinhas finas de pão dormido, que ela não esquecia no forno até queimar, como eu. A caixinha de costura revelava uma fortuna em botões e variadas miudezas que rendiam horas de habilidades descobertas. Das gavetas surgiam objetos extraordinários como jogos de baralho, lápis de escrever com uma borrachinha encaixada na ponta, livros e folhetos contando histórias de santos, carmelitas descalças e sobre a origem da vida.

Ela plantava as peças pela casa e nós íamos encontrando, como se acaso fosse, aqueles pedacinhos de mundo.

Meu pai herdou esse hábito de espalhar tesouros. Os dele vêm escondidos dentro das palavras, liberadas no ar.

Ele as planta em apelidos engraçados, frases inusitadas, canções aparentemente sem sentido. Como uma lata de biscoitos colorida que aguarda confiante até ser aberta.

Assim, Isabeluca já sabe, em tão tenra idade, tanto ouvir rimas como defender-se da acusação de maluca. O singelo Juju que a prima trouxe da infância arrasta vistosos balangandãs fartamente ofertados às crianças. O gelo que escorrega inadvertidamente pela garganta em um susto não é vidro, e tudo bem porque pedra d'água derrete.

Um avô poeta. Ele nem sabe.

domingo, 2 de junho de 2019

Risadas


Elas têm uma brincadeira que consiste em gritar muito alto e de repente, para assustar uma à outra. Em seguida, morrem de rir.

Eu fico apavorada.

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Universidade


Meu primeiro dia de aula na universidade, de manhã, naquela sala maior do prédio da Letras, que na minha lembrança parece um imenso auditório.

(Nos últimos anos do curso, à noite, ela não era suficientemente grande para acomodar as carteiras de todos os matriculados, e assistíamos às aulas em cadeiras que se amontoavam a ponto de não ser possível fechar as portas, ou então sentados no chão mesmo. Veio a greve de 2002.)

Pequena e sozinha, dedicada e leviana, pego o papel com o programa e a bibliografia do curso e leio logo no alto: “Aristóteles”. Foi tamanho o meu susto que levei algum tempo para compreender. Aquele da Grécia Antiga?... Apesar da reputação de inteligente e CDF da qual eu gozava entre amigos, inimigos e parentes, a adolescente do interior que se aventurava ali entre os grandes nunca havia pensado que realmente se lesse, mesmo, Aristóteles. Talvez um resumo em algum manual de Filosofia, mas não ler, ler mesmo. Muito menos eu mesma! Aristóteles.

Para mim, entrar na universidade foi desse tamanho.

Um atordoamento.

Claro que eu não sabia na época.

Levei sete anos para concluir aquela disciplina e me formar. Foi a última que eu cumpri: a disciplina introdutória do curso.

Desde menina eu achava que a universidade era o meu lugar, que ali eu estaria imersa no que mais admirava, que ali estaria em um lugar confortável. O grego me assustou tanto que eu precisei ficar dezessete anos lá dentro até passar o susto, me acostumar, e finalmente me aborrecer um pouco com tudo aquilo e tentar a vida lá fora.

Pouco tempo atrás, o emprego nunca planejado me fez voltar ali em busca do meu diploma. Aquele lugar onde vivi por mais tempo do que vivi em qualquer outra parte do mundo. Aquele papel desprezado no armário por anos. Chorei, encontrando a menina que chegou ali mais tonta do que uma borboleta, agradecendo a meus pais por me proporcionarem aquilo tão grande que me tirou o chão, comovida em observar a distância entre mim e a menina que lia Saussure no xerox debaixo das árvores.

Eu tive uma longa adolescência. E precisei da universidade para vivê-la e superá-la.

(Ali se pensa, se aprende profissão, se faz pesquisa, se aprende política, se descobre remédio, se inventa máquina, se observam as estrelas. E se vive. E a gente se faz grande.)

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Bolo de chocolate


Toda a semana que antecedeu o nascimento de Isabel, eu pensei em bolo de chocolate. O "meu" bolo de chocolate, favorito entre todos.

Isabel não podia demorar. Eu tinha uma cesárea prévia. Se ela passasse das 41 semanas eu tinha de começar a pensar em indução, menos tranquila com cesárea prévia.

Teresa havia chegado às 41 semanas sem nenhum sinal de trabalho de parto. Inventei pra mim que minhas gestações teriam o padrão de ser longas.

Isabel precisava saber que o mundo aqui fora é bom, que vale a pena nascer. Bolo de chocolate.

Semana cheia de tarefas, só consegui fazer o bolo no domingo. Em pródromos.

Na segunda-feira ela nasceu.

O mundo é bom.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Arrebatamento


Eu sei precisamente quando começou o expulsivo.

Como um raio, sem tempestade que o anunciasse, uma força eretora atravessou aquela mornidão lânguida que se espalhava dentro e fora de mim, e me colocou de pé.

De cócoras. Sobre os meus pés.

Eu era forte e ereta como são os machos.

E as fêmeas.

Eu era forte e ereta como pedem os professores de ioga. Como se um fio atravessasse meu corpo e fosse puxado acima da minha cabeça. Alinhando meu corpo com a delicadeza e a precisão exatas.

Quem puxava o fio era minha avó.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Luz


A recusa da ideia de Deus, espíritos ou quaisquer entidades sobrenaturais, bem como de inteligências ou vontades superiores atuantes na natureza, tal recusa não é necessariamente fruto de uma personalidade arrogante e apolínea, convencida de que tem - ou terá - a seu dispor toda a luz, sendo assim apenas desperdício largar-se a sonhar com seres da escuridão.

Não. Precisamente ao contrário, tal recusa pode ser a atitude daquele talvez capaz, por alguns instastes, de honrar da maneira mais profunda a escuridão: sem a pretensão de nomeá-la nem povoá-la com seus seres de meia-sombra.

Convivemos, o escuro e eu.

...


Eu escrevo porque é líquido.

Se fosse sólido,
esculpiria.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Crescer


Do pouquinho que estudei de Paulo Freire durante minha formação em educação, há uns dois mil anos, restaram na memória a crítica à “educação bancária” (o professor “deposita” conhecimentos em seus alunos, que os “devolvem” nos exames) e a ideia de que a educação acontece quando mobiliza o sujeito em sua potência, quando toca o interesse dos sujeitos. O que, me parece, é muito prático quando se trata de educar crianças, porque as crianças se interessam por nada menos do que a totalidade da vida.

Estamos em uma semana muito importante aqui em casa. Eu não tinha notado, no meio do fluxo do cotidiano. É a última semana de Teresa no primeiro ano da escola. Da escola das crianças grandes com mãos enormes capazes de segurar o mundo inteiro. E a cada dia ela traz para casa uma preciosidade para nos lembrar da grandeza do seu ano. Obras de arte, livros, autorretratos, poemas, pedaços de cenário. Ela e seus amigos escreveram e encenaram uma peça de teatro este ano. E compuseram músicas. Escreveram um livro ilustrado. E criaram coletivamente um procedimento acordado para lidar com os colegas que fizerem coisas que não são muito boas, como atropelar o amiguinho no brinquedão.

Ela está alfabética e ortográfica e tem ótimo desenvolvimento de lateralidade, aprendi com a coordenadora. E ninguém precisou atormentar a menina pra isso. Não tem ninguém rabiscando suas obras com caneta vermelha. Ela entendeu que seu modo de escrever é precioso e potente, mas se interessa pelo modo “dos adultos”, quer conquistá-lo. Nós temos essa vantagem que é quase uma trapaça: as crianças nos admiram. É impressionante como podemos ser desastrados a ponto de perder esse trunfo.

Hoje ela me confidenciou que este ano foi a primeira vez que ela soube que existem eleições, e me explicou longamente diversas de suas ideias a respeito. Ela está muito atenta à sobreposição não coincidente das teias de relações pessoais e políticas. Nós passamos os últimos meses ouvindo o noticiário político juntas. No início ela concedeu trocar a música pelo noticiário porque eu pedi, mas agora gosta, e essa confissão sai com um risinho engraçado.

Ela quer saber se existem mais mulheres ou homens no mundo. Se existem mais mulheres, porque estão no poder homens que não são bons para as mulheres? Uma boa matemática.

Choro no carro lendo as fichas de autoapresentação de cada criança. A gente oferece uma ficha com lacunas, e eles devolvem o simples imenso: “Sou DESENHISTA como A FRIDA”.

Penso na frase que é uma das minhas favoritas da vida: “Mas se eu inventei, como é que não existe?” 

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Posteridade


Ela lança para a irmã:

- Sua mini-Einstein!

Aguardo intrigada e em silêncio que a própria vida me esclareça. Nada. Algum tempo depois:

- Hahaha, sua mini-Einstein!

A curiosidade obviamente me derrota:

- Por que mini-Einstein?...

- É que ela vive botando a língua pra fora.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

rompasse


eu escrevo arrumadinho
não sei fazer de outro jeito
não sei viver de outro jeito

às vezes
eu queria

escrever rasgado
viver rasgando

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Precinecessário


Ele colocava fatias de bacon direto sobre a chapa do fogão a lenha, e nada nunca foi melhor que bacon. Banana da terra com canela chega perto. Mingau de aveia não...

Foi ele que me ensinou a fazer arroz.

Era com ele o mar. Mesmo caçoando da nossa frescura, levava a gente no colo até depois das algas. E uma vez teve medo de sermos levados pela correnteza. Não percebi o medo enquanto ele nos tirava dali, encoberto pelo habitual autocontrole.

Minha música é toda ele.

Eu era acordada no sábado de manhã com a casa preenchida por Luís Gonzaga, e até hoje lá em casa Luís respeita Januário.

Eu não fui preparada para o gosto musical da FFLCH pela escola meio intelectual meio de esquerda que nunca frequentei, mas por ele próprio, que me mostrou os mesmos poucos discos de Chico Caetano Betânia Vinícius e me ensinou pessoalmente que cálice era cale-se.

Se não fosse por você, eu não poderia correr no parque chorando com Duda no frevo, após o primeiro turno, para pensar nas eleições e um pouco amargar nossos votos antípodas.

Apesar de mim e de você, você está em mim e eu em você.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Erro de margem


Receitas de uma panela só são ótimas para jantares práticos em dias difíceis.

Você pega uma frigideira grande, de preferência antiaderente, e coloca nela uma colherada enorme de manteiga, mais um fio de azeite. Deixa no fogo baixinho enquanto corta algumas batatas em cubos. Os cubinhos ficam ali cozinhando e dourando devagar na manteiga, enquanto você pica um maço de espinafre. Quando a batata estiver cozida, o espinafre entra. Antes, alho. Empurrando as batatas para as bordas da frigideira, abre-se um espaço onde você pode dourar em azeite um alho bem picadinho, para em seguida jogar o espinafre por cima. Vai mexendo e temperando com um salzinho e pimenta-do-reino. Por fim, é só abrir algumas cavidades no meio da mistura e quebrar um ovo em cada uma delas. Gema mole, ou nem vale fazer... Mais sal e pimenta sobre seu ovinho.

Fica delicioso.

Fiz hoje para o jantar com as meninas, enquanto ouvia na TV os resultados da mais nova pesquisa eleitoral.

No fim, sempre haverá receitas culinárias para publicar.