Na adolescência, acontece o que os neurocientistas chamam de “poda neural”, quando o cérebro perde uma grande quantidade de neurônios relacionados a habilidades pouco ou não desenvolvidas até aquele momento. O cérebro adulto não aguentaria carregar tantos neurônios ligados a habilidades tão variadas, então ele conserva aquilo que parece nos ser mais caro. É mais ou menos isso, segundo a neurociência de Internet à qual tenho acesso.
O conhecimento dessa dinâmica me causa certa ansiedade materna, porque eu não proporciona às minhas filhas a mais variada cartela de experiências que um
ser humano pode ter. Elas não fazem aulas extras de música, dança ou desenho, e
eu nunca as levei para acampar. O que sobra na poda neural dos pobres
adolescentes de apartamento?
Lembro do professor de literatura francesa da faculdade, psicanalista,
que dizia: “Dos zero aos sete, gente, está tudo dos zero aos sete”. Mas vem a
terapeuta e me lembra: podemos usar essa compreensão para lidar adequadamente
com as infâncias sob nosso cuidado e para olhar com gentileza e compaixão para
a nossa própria infância – em vez de estabelecer futuros engessados e
deterministas a quem quer que seja.
Quando eu era adolescente, acreditava firmemente que meu valor como
pessoa estava vinculado ao meu desempenho acadêmico. Os neurônios para vôlei,
piano e giz pastel não tinham a mais mínima chance comigo. Ainda hoje me recrimino a contragosto por ter decidido não seguir adiante com o doutorado, por
não ter tentado construir o caminho para uma carreira universitária. Tento me convencer de que fiz o que eu queria, mas a juíza que
me habita está certa de que fui indolente, encobrindo assim um medo de fracassar. Eu tenho, porém, explorado a possibilidade de que também me habita uma adolescente que
gostaria de ter experimentado mais. Que acreditou rápido demais que a roupa
muito colada ao corpo era sua pele.
Andei revirando a Internet para descobrir como fazer desenhos em
perspectiva. Tenho sentido uma urgência insuportável de “ver” meu futuro
apartamento, de ter desenhos e planilhas para onde drenar todas as coisas que
do contrário ficam girando dentro da minha cabeça sem sossego nem propósito
feito aqueles rolos de feno dos filmes de faroeste.
Divertido e contrariado, meu cérebro foi obrigado a remexer seu baú. E não
é que lá no fundo tinha uns neurônios remanescentes para desenho e lápis de cor?
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