quarta-feira, 12 de março de 2025

Perspectiva

 

Na adolescência, acontece o que os neurocientistas chamam de “poda neural”, quando o cérebro perde uma grande quantidade de neurônios relacionados a habilidades pouco ou não desenvolvidas até aquele momento. O cérebro adulto não aguentaria carregar tantos neurônios ligados a habilidades tão variadas, então ele conserva aquilo que parece nos ser mais caro. É mais ou menos isso, segundo a neurociência de Internet à qual tenho acesso.

O conhecimento dessa dinâmica me causa certa ansiedade materna, porque eu não proporciona às minhas filhas a mais variada cartela de experiências que um ser humano pode ter. Elas não fazem aulas extras de música, dança ou desenho, e eu nunca as levei para acampar. O que sobra na poda neural dos pobres adolescentes de apartamento?

Lembro do professor de literatura francesa da faculdade, psicanalista, que dizia: “Dos zero aos sete, gente, está tudo dos zero aos sete”. Mas vem a terapeuta e me lembra: podemos usar essa compreensão para lidar adequadamente com as infâncias sob nosso cuidado e para olhar com gentileza e compaixão para a nossa própria infância – em vez de estabelecer futuros engessados e deterministas a quem quer que seja.

Quando eu era adolescente, acreditava firmemente que meu valor como pessoa estava vinculado ao meu desempenho acadêmico. Os neurônios para vôlei, piano e giz pastel não tinham a mais mínima chance comigo. Ainda hoje me recrimino a contragosto por ter decidido não seguir adiante com o doutorado, por não ter tentado construir o caminho para uma carreira universitária. Tento me convencer de que fiz o que eu queria, mas a juíza que me habita está certa de que fui indolente, encobrindo assim um medo de fracassar. Eu tenho, porém, explorado a possibilidade de que também me habita uma adolescente que gostaria de ter experimentado mais. Que acreditou rápido demais que a roupa muito colada ao corpo era sua pele.

Andei revirando a Internet para descobrir como fazer desenhos em perspectiva. Tenho sentido uma urgência insuportável de “ver” meu futuro apartamento, de ter desenhos e planilhas para onde drenar todas as coisas que do contrário ficam girando dentro da minha cabeça sem sossego nem propósito feito aqueles rolos de feno dos filmes de faroeste.

Divertido e contrariado, meu cérebro foi obrigado a remexer seu baú. E não é que lá no fundo tinha uns neurônios remanescentes para desenho e lápis de cor?





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