sexta-feira, 2 de junho de 2017

Rotinas, roteiros, percursos


Eu não tenho provas, mas tenho convicção de que a máxima "criança precisa de rotina" é falaciosa. Ou, pelo menos, ela precisa ser relativizada e tratada de uma maneira mais complexa do que habitualmente se encontra nos guias e dicas sobre educar crianças.

Acredito que as crianças – assim como nós, aliás, em alguma medida – precisam de pontos de referência, precisam de relações humanas quentes, precisam de tempo e liberdade para contemplar o mundo e a si mesmas e se espantar com a imensidão. Precisam que a vida seja recheada de sentido, e não ter sua existência tragada por esse vazio árido que nos ronda.

E nada me convence de que isso se traduz em dormir e acordar no mesmo horário, nem em fazer todas as refeições com cinco cores no prato. É que isso é mais fácil de prescrever. Não é a rotina que garante isso, é alguma coisa bem mais difícil de operacionalizar, são as relações verdadeiras com o mundo, com os outros seres humanos, consigo mesma. Talvez o que rotina faça seja garantir alguma segurança diante da ausência ou da precariedade de todo o resto.

Claro que eu posso estar completamente errada.

sábado, 20 de maio de 2017

O poder do marketing - e da falta de horizontes


Estamos na cozinha, arrumando a louça e brincando de adivinhação:

- Mamãe, é uma palavra que começa com "la".

Respondo a primeira coisa que me vem à cabeça:

- "Lá, lá, lá, Brizola..."

Errei. Era "laranja".

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

De príncipes e princesas, ou: Diferentes narrativas da concepção humana - explorando a noção de neutralidade da ciência


Hoje assisti, em algum lugar da Internet, a um vídeo mostrando o desenvolvimento de uma gestação humana por dentro do corpo da mulher. Nada de novo sob o céu, mas eu gosto, acho divertido ver esses vídeos sobre “maravilhas da natureza” que poderiam passar no Fantástico com narração de Cid Moreira (acho que faz um tempo que não vejo o Fantástico).

Ele seguia o roteiro de todos os vídeos, animações, desenhos etc. que me lembro de ter visto sobre esse processo: a aventura começa quando o intrépido batalhão de espermatozoides (que lamentavelmente perdeu parte de sua dignidade junto com o acento agudo) lança-se rumo ao desconhecido, navegando à velocidade da luz por mares bravios, até que apenas o mais corajoso, o mais veloz, o mais resistente, o primeiro a atravessar incólume essa galáxia de possibilidades terríveis que é o interior do corpo feminino, apenas ele – o escolhido – atinge o óvulo, com sua barreira até então intransponível, mas que, diante de cavaleiro tão cheio de predicados, de guerreiro tão vistoso tão temido e poderoso, finalmente se abre para a consumação do milagre da vida! Dizem até que eles foram felizes para sempre.

Ocorre que a aventura começa antes, não? Pois prepare o seu coração, pois agora vamos, por essa selva escura e desvairada, acompanhar a incrível jornada do óvulo (que, aliás, soube manter seu acento e sua dignidade). A história de nosso herói começa há muito tempo: ele é a vida dentro de cada nova vida, o primeiro lampejo do rebento vindouro. Tendo sempre vivido entre os seus, no lugar em que tudo lhe era conhecido, em que tudo lhe era afável, quando a missão o chama, no momento exato em que é instado a cumpri-la, nosso herói despede-se sem hesitar de sua aldeia, e lança-se, com coragem e precisão, através do desconhecido. Com a sabedoria ancestral que lhe é inerente, segue a trilha dos que o precederam em busca do local exato, do momento preciso. Ele sabe que há apenas um lapso de tempo em que a profecia pode se cumprir. E sabe que cabe a ele, e somente a ele – o escolhido –, encontrar esse portal mágico do tempo e do espaço, para que o guerreiro não pereça em sua corrida cega. Após longos dias de viagem, encarando o risco da morte, atormentado pelo temor da vacuidade de sua existência, ainda assim ele segue impávido rumo a seu destino. Alcança o local predestinado. É ali. O local preciso. O momento exato. Ele é o escolhido. Em sua sabedoria inata, sopra nos ouvidos incautos do viajante veloz os sinais que o colocam na trilha correta. Até que finalmente pode abrir suas membranas, liberar suas abundantes enzimas. Os céus se movem: transforma-se em vida o vaticínio ancestral.

(Quem diria que o óvulo não era só um bobo ali esperando. E os cometinhas, vamos lá que são rapidões, mas a bem da verdade às vezes eles nem sabem onde estão batendo a cabeça...)


terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Abraço o que existe


Eu descobri o medo de minha mãe em mim.

E ao descobri-lo, descobri a força de minha mãe em mim.

E de toda uma teia de mulheres que seguiram em frente sabe lá deus como.

Sabemos nós como.

(Em cada uma de nós existe uma teia de mulheres que vale a pena descobrir.)