quarta-feira, 27 de julho de 2016

Desde que o samba é bamba


Ando envolvida com um trabalho novo que tenho adorado, uma tradução para legendagem de vídeo.  É difícil, para mim, pois não tem roteiro escrito, somente o áudio, e eu sempre fui “ruim de ouvido”, tanto para música como para idiomas. De modo que agora toda vez que entro no carro para ir sozinha a algum lugar, já ligo o áudio, na esperança de deixá-lo impregnar meus ouvidos e conseguir fazer o trabalho direito. E está sendo uma experiência muito interessante, pois a cada audição eu entendo algo que não havia entendido na vez anterior, e fico toda feliz, feito criança que aprendeu coisa nova.

Só topei esse trabalho porque é um projeto querido, pois eu sabia que ia ser muito desafiador. Mas está sendo uma roubada deliciosa.

***

Depois do jantar, enquanto ajeito as coisas, vou cantarolando.

“A tristeza é senhora
Desde que o samba é samba...”

A menina desenha. E ouve, percebo. Então aproveito o laptop aberto na cozinha e coloco o sambinha no YouTube. Ela reage: “Ah, mas eu queria ouvir uma menina cantando...” Ok, internet tem tudo.

Quando a voz feminina surge, seu rosto se ilumina.

***

Passei toda uma vida, inúmeras chuveiradas, incontáveis lavagens de louça e sabe lá deus quantas rodinhas de samba e violão cantando, toda feliz:

“Solidão apavora
Tudo demorando em seu tamborim”

Choque: a voz feminina vem me esclarecer que nunca houve nenhum tamborim ali.

E eu que achava o tamborim tão poético...

***

Pelo menos, parece que os ouvidos andam atentos por aqui.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Mel e canela


- Tá cor de mel e canela.

Levo um tempo para entender que, enquanto eu olho placas, carros e semáforos, ela vê o horizonte.

- O céu, filha?

- É. Quando o Sol se põe o céu fica cor de mel e canela. Quando ele nasce e quando se põe.

Perplexos, meus olhos marejam.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Privação de sentidos


Na academia, há música em toda parte, o tempo todo.

Na sala de yoga, na piscina, nos corredores, no chuveiro, na privada.

Jamais podemos estar no silêncio.

***

No vestiário, duas moças conversam:

- Quando eu me olho nesse espelho aqui, até que não me acho tão gordinha. Mas lá na sala, fazendo os exercícios, parece que estou tão gorda...

- É aquela luz.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Comida


Dias atrás fui encontrar uma amiga em um restaurante, no sábado, dia de feijoada. Minha filha foi conosco, levando sua massinha, o brinquedo da vez. Ela brincava muito concentradamente na mesa, enquanto eu lia o cardápio, perguntando o que ela gostaria de beber. No ponto em que eu repetia a pergunta pela terceira vez, já com uma voz de quem estava se aborrecendo, minha amiga, que anda muito interessada em neurociência e desenvolvimento infantil, interveio: “Ela não pode te responder, o cérebro dela está fazendo outra coisa.”

Esses dias, lendo um comentário de uma consultora de alimentação infantil sobre não misturar BLW com papinhas, lembrei dessa cena da massinha. Deixar a criança manipular a própria comida não pode ser uma distração para que alguém aproveite e encha sua boca de comida. A ideia do BLW é permitir que a criança se alimente no seu tempo, com consciência – não que ela brinque com um pedaço de brócolis enquanto lhe dão uma comida que ela não tem nem a oportunidade de reconhecer.

Quando começamos a introdução alimentar da Teresa, eu nunca tinha ouvido falar de BLW, sigla para baby led weaning, algo como uma introdução alimentar (desmame) guiada pelo bebê. Até onde eu sabia, alimentação de bebês teria de passar por papinhas. Mas fui lendo algumas coisas, conversando aqui e ali. Esse tema me absorvia muito: acho que eu pensava em como e quando começar a introdução alimentar da minha filha desde antes de ela existir...

Eu tinha uma preocupação sobre como oferecer uma comida adequada e construir hábitos alimentares saudáveis, talvez porque isso seja um assunto onipresente hoje em dia, além da conhecida culpa de mãe. Mas também tinha outra coisa: eu ficava meio apavorada com a tal fase das papinhas. Quando imaginava como seria esse momento, achava tudo muito chato e inconveniente.

Me desagradava muito a ideia de ter de fazer comidas específicas, de acomodar minhas atividades em torno de fazer e dar papinhas, de ficar carregando potinhos mundo afora. Nunca fui uma mãe de potes e sacolas. Como muitas mulheres, me sentia solitária e enclausurada após o nascimento da minha filha, e resolvi não me prender mais que o necessário: colocava algumas fraldas na bolsa, sling a tiracolo, e ia passear, tranquila com o fato de que qualquer fome e sono se resolviam com colo e peito. Mas as tais papinhas me colocariam refém das sacolas, potinhos e micro-ondas...

Também era um momento da minha vida em que as tarefas cotidianas constituíam um desafio permanente. Eu estava equilibrando o trabalho e a finalização do mestrado, e me pesava a ideia de criar mais tarefas a serem cumpridas – produzir e armazenar refeições especiais, ter um momento somente para dar comida. Além disso – agora vem a confissão realmente embaraçosa – eu tinha uma certa preguiça daquele momento de dar comida na boca.

Se por um lado isso revela meu lado sombrio de mãe egoísta e preguiçosa, por outro eu acho que tem a ver com uma outra coisa, menos sombria. Eu gosto muito de cozinhar e de comer, e considero as refeições momentos cotidianos de prazer e celebração. Eu queria simplesmente fazer comida, sentar e comer, junto com minha filha. (Talvez não fosse preguiça, mas intuição.)

Houve duas coisas fundamentais que me iluminaram e ajudaram a entender qual seria o caminho possível por aqui. Uma foi o livro Mi niño no me come, de Carlos González. Eu poderia dizer que ele mudou tudo o que eu pensava. Mas minha sensação foi, na verdade, a de que ele me revelou tudo o que eu já sabia. Entendi que a alimentação (só a alimentação?) infantil (só a infantil?) tem a ver com ética e confiança. Nós sabemos alimentar e nos alimentar. Saúde tem a ver com muitas coisas, inclusive (talvez sobretudo) com alegria, com a vida não ser um fardo. Não se obriga uma pessoa a comer (e crianças são pessoas). Também não se obriga alguém a submeter sua cozinha a preceitos e caprichos alheios. Confiança na comida, confiança na criança, confiança na vida.

A outra foram as muitas conversas que tive em um espaço dedicado ao atendimento de crianças e suas famílias, onde fiz aulas de yoga, conversei com várias mães, e participei de rodas de conversa sobre alimentação infantil. Fiz até uma oficina sobre introdução alimentar de bebês, mas mesmo nessa oficina não me recordo de termos falado nominalmente em BLW. No entanto, lembro de uma colocação que inverteu completamente minha perspectiva sobre tudo aquilo: não se trata de introdução alimentar para a criança, mas da introdução da criança no mundo da comida. De apresentar a criança ao mundo das refeições familiares.

Nesse momento, descobri que era possível, saudável e sensato precisamente aquilo que eu tanto almejava: sentar e comer com minha filha.

De modo que parei de procurar guias alimentares e ignorei silenciosamente as orientações de preparo e balanceamento de papinhas feitas pela pediatra na consulta dos seis meses. Em vez disso, continuei preparando minhas refeições e comendo-as junto à minha filha. Ela ficava ao meu lado, sentada em cima da mesa, em um “bumbo” (uma espécie de cadeirinha de bebê que colocávamos mesmo sobre a mesa, pois em casa temos um balcão com bancos altos, e não uma mesa com cadeiras baixas e “seguras”). Eu fazia comida “normal”, colocava algumas coisas em um prato para ela, e deixava-a livre para manipular o que a interessasse, como quisesse. Sim, sim, havia muita sujeira... No meio dessa bagunça, às vezes alguma coisa acabava sendo comida. Mas isso não era objetivo, era parte.

A coisa toda causava um bocado de estranhamento. Em geral, as pessoas manifestavam a preocupação de que ela estivesse começando a comer “muito tarde”, e de que pudesse engasgar. Bem, sobre “adiar” a introdução alimentar, eu estava bastante segura, pois atualmente mesmo as orientações mais ortodoxas são de que bebês que só tomam leite materno comecem a receber alimentação complementar a partir dos seis meses – as orientações para começar antes disso não são ortodoxas, são francamente ultrapassadas. Já sobre engasgar... Não sei se alguma mãe ou pai não se preocupa com isso, mas esse é justamente o benefício de não iniciar a alimentação complementar antes da hora! Eu ficava atenta, claro, mas só coloquei comida à disposição da minha filha quando ela já se sentava e se interessava em comer. Oferecia os alimentos em pedaços grandes, não colocava comida na boca dela, não dava coisas pequenas e redondas, nem muito duras como castanhas... Ela nunca engasgou. Nosso medo pode ser uma intuição de segurança, e acho que precisamos ouvi-lo. Se há medo, é preciso recuar e avaliar. Mas o medo também pode ser uma vida sem intuição, sem confiança, alienada, e precisamos nos fortalecer – com troca, com apoio, com informação, com terapia, o que estiver ao alcance.

A preocupação de que a alimentação complementar começou “tarde” se articula com o receio de que a criança esteja “comendo pouco”, de que não esteja suficientemente nutrida. Você coloca a comida na frente dela e ela brinca, em vez de comer. Querem vê-la raspar o prato... Não vou entrar em discursos sobre o quanto a indústria do alimento infantil sabotou a nossa força e a nossa confiança (aliás, a indústria de um modo geral nos convenceu da necessidade de um tanto de tralha para criar filhos...). Mas, no meu caso em particular, eu confiava verdadeiramente na amamentação. Posso dizer que até um ano de idade, seguramente, eu imputava a nutrição da minha filha ao meu leite. As outras comidas eram para treinar, para aprender a comer, para participar do universo social que a comida representa, para conhecer cores e sabores. Para sair da mãe e entrar no mundo. Mas, se não comer, o leite dá conta. Pelo histórico de doenças da Teresa, ou eu tive muita sorte, ou não estava muito errada em pensar assim.

Talvez o mais bonito de tudo isso seja que, se inicialmente eu relutei em abraçar as mudanças que viriam com a obrigação de cozinhar para uma criança, e parecia que as papinhas virariam minha vida do avesso, a verdade é que a decisão de oferecer à minha filha a mesma comida que estivéssemos comendo mudou enormemente o jeito como comemos em casa, e meu jeito de cozinhar. Comecei a pesquisar formas de oferecer uma comida adequada e saudável, mas em vez de me encantar com os blogs de antroposofia e macrobiótica, fiquei mesmo naqueles que me ensinaram a fazer pão e manteiga em casa. E risoto na panela de pressão. E a preparar legumes de vários jeitos, para a criança que só teve dentes com um ano e até hoje não se interessa por salada de folhas. Mas come escarola refogada com macarrão. E adora brigadeiro. E anda rejeitando pizza, para desespero dos pais que não querem entrar na cozinha no domingo à noite.

É que não era a mãe fazendo comida de bebê, era eu inteira, fazendo comida boa para todos nós.

Porque não são só as mãos que moldam a massinha, é o cérebro também, é o corpo todo. Quando a gente abraça, é o corpo todo que abraça. Quando a gente pensa, é o corpo todo que pensa. Quando a gente come, é o corpo todo que come. Ou deveria ser. Ou poderia ser.

Ou, pelo menos, podemos ter isso no horizonte.

sábado, 21 de maio de 2016

...


Recentemente eu participei de uma coisa chamada “Treinamento de Inteligência Emocional”. Ganhei de umas amigas, muito queridas, que achavam que era algo muito bonito que eu nunca viria conhecer, pois jamais me lançaria por conta própria naquilo. Elas estavam duplamente certas: é bonito mesmo, e eu dificilmente me meteria em algo com esse nome.

Começa pelo “treinamento”. Treinamento me faz lembrar daquelas experiências com bichinhos levando choque e ganhando comida. Para mim, a ideia de seres humanos sendo treinados remete ao exército e às distopias relacionadas ao totalitarismo. Manipulação com base científica. Preparação do ser humano para a barbárie.

E depois a tal “inteligência emocional”... Não sou psicóloga nem neurobióloga, mas do alto da minha ressonante ignorância eu simplesmente acho que nós temos inteligência, pronto, uma só. Uma coisa complexa e multifacetada, que não dá pra sair quebrando em “inteligência lógica”, “linguística”, “espacial”, “emocional” e por aí vai. O que ocorre é que nossa existência foi intensamente fragmentada. Em uma sociedade atomizada, o mundo do trabalho foi nos quebrando em mil pedacinhos, a fim de identificar qual deles interessa e quanto vale pagar por cada um. Em certo momento da história, éramos quase todos “braços”. Agora, temos de nos esforçar um pouco mais e, se nos qualificarmos o suficiente, podemos ser também, além de “braços”, “proatividade”, “flexibilidade”, “liderança”.

Mas ser quebrado em mil pedaços não é, evidentemente, um procedimento gerador de uma existência plena ou saudável. A gente adoece, em pedaços. Em algum momento, a complexidade que nos foi tirada tem de ser entregue de volta, mesmo como ilusão, mesmo na forma de mercadoria (pois essa é a coerência de nosso momento histórico), quem sabe como utopia. Então temos uma miríade de soluções: tratamentos holísticos e espirituais, terapias tradicionais repaginadas (minha mãe foi fazer reiki e disse que é igualzinho quando ela ia na benzedeira – achei muito sagaz), psicoterapia em dezenas de versões, grupos de apoio, medicamentos para corrigir nosso cérebro (sem corrigir nossa vida)... E até treinamento de inteligência emocional. (É bom dizer – embora evidentemente ninguém precise do meu aval para coisa alguma – que acho todas essas “soluções” absolutamente válidas como busca pessoal. Apenas cabe pensar o que elas revelam sobre nosso mundo e nossas vidas.)

Pois é, fui lá... E achei muito bom. Revelador e acolhedor. Mas continuo não gostando do nome, e acho que ele não faz jus ao que se passa ali. Para mim, trata-se de um processo terapêutico. E processos terapêuticos me parece que são bem o oposto do treinamento, são o “destreinamento”. Ter a oportunidade de olhar para os nossos comportamentos condicionados e percebê-los, observar nossos sentimentos, imaginar outras possibilidades de ação e de reação, isso é o contrário do treinamento, é desenvolver a sensibilidade a respeito de nós mesmos, a responsabilidade por nós mesmos. E isso não tem a ver com um fragmento de nós chamado “inteligência emocional”, tem a ver com a totalidade do nosso ser, inserida no emaranhado da nossa existência, que inclui desde os nossos antepassados até as nossas fantasias de descendência.

Mas talvez eu não tenha entendido nada, e só estou tentando recusar a ideia de que fui treinada.

E talvez tenha sido bom.

Dormir. Dormir é um assunto na minha vida. Uma questão, um problema. Acho adormecer uma coisa muito difícil. De vez em quando eu digo que não sou de sonecas, porque dormir e acordar são duas coisas tão difíceis, mas tão difíceis, que eu prefiro fazer só uma vez por dia. Meu marido diz que eu não tenho insônia, porque, embora custe a dormir, depois que eu durmo passo doze horas na cama de boa – mas eu me apego aos especialistas que dizem que isso também chama insônia (vão patologizar tudo menos justamente a minha doença?! ora bolas...). Pois a minha insônia tem sido alvo de reflexão há muito tempo, e fui aprendendo a aceitá-la, compreendê-la, talvez decifrá-la um pouco. E dormir tem sido melhor.

Em certo momento do treinamento, nos orientam a dormir. Estamos exaustos, deitamos em colchonetes. Eu inicio um leve processo de pânico, porque sei que estou exausta e seria ótimo dormir, mas também sei que não vou dormir, porque eu não durmo. Eu não durmo. Sucumbi, depois de anos relutando, a colocar uma TV no quarto para me ajudar a dormir, porque eu não durmo.

Deitamos em colchonetes. Apagam as luzes. Cuidam da temperatura ambiente. Uma voz calma nos orienta. (Eles acham que eu vou dormir só por causa de um escurinho e uma voz tranquila...)

Até que a voz diz uma coisa que eu acho que ninguém nunca me disse antes: “Você pode dormir, porque está em segurança. Quando você acordar, tudo estará como agora. Não há por que ter medo. Você está seguro.”

Quando acordei e percebi que tinha dormido, comecei a chorar.

Eu dormi.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Vocações


Algumas reflexões preliminares suscitadas pela minha semana de experiência nesse universo paralelo que é a academia de ginástica.

- Artistas de circo não queriam ser professores de práticas circenses.

- Nadadores não queriam ser professores de natação. Especialmente de mulheres de meia idade sem aptidões atléticas.

- Não sei se yogues queriam ser professores de yoga, mas eles estão sempre sorrindo, de qualquer modo. O que é bom.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Neologismo


Entrando no túnel escuro:

- Mamãe, tá anoitecendo!

Saindo do túnel escuro:

- Mamãe, agora tá dediando!

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Movimento


Nesta revisão da minha maternidade, lembranças se revelam, memórias se constroem. E muito aprendo.

Lendo sobre a abordagem da assistência ao parto na sociedade ocidental moderna, descubro que o início desse movimento que no Brasil comumente se chama de “humanização” do parto remonta a uma reivindicação das mulheres inglesas, em meados do século XX, por não serem obrigadas a se deitar durante o trabalho de parto, pela possibilidade de atravessarem esse processo na posição que preferissem.

Não deveria ser espantoso – sobretudo no seio da civilização que instituiu as liberdades individuais como princípio fundamental – que um ser humano em pleno gozo de suas faculdades físicas e mentais precise reivindicar o direito de manter seu corpo na posição em que bem entender?

Não consigo evitar a resposta de que em nossa sociedade as mulheres não são realmente encaradas como indivíduos em pleno gozo das faculdades humanas. Naturalmente instáveis – com todos esses ciclos, hormônios e caprichos –, como permitir que tomem decisões livremente? Some-se a isso uma ideologia tecnocrática, e eis que estamos diante de uma leiga voluntariosa a qual tenta irresponsavelmente desafiar um profissional sensato que só deseja o bem dela.

De modo geral, minha tendência é legitimar as formas racionalizadas de entendimento do mundo. A busca pela razão foi sempre o meu caminho. Mas tenho aprendido a me aproximar das possibilidades do intuitivo e do visceral. E isso certamente tem uma raiz na(s) minha(s) gravidez(es). Porque a gravidez acontece também na alma, mas ela é incontornável no corpo...

Após o aborto espontâneo para o qual evoluiu minha primeira gestação, a obstetra que me acompanhava prescreveu um remédio a fim de ajudar a “limpar o útero” e evitar uma possível curetagem. Eu não fazia a menor ideia do que se tratava, mas acatei a recomendação. (Assim procedem os médicos conosco, e assim procedemos nós com os médicos...) Ela não me explicou nada sobre aquele comprimido ou a respeito do que se passaria comigo, apenas indicou que o tomar era uma conduta normal em caso de aborto espontâneo. Tomei o remédio à noite, antes de me deitar para dormir. E comecei então a sentir cólicas que foram aumentando gradualmente, tornaram-se muito intensas, vindo em ondas. Eu não sabia se podia tomar algum analgésico, era de noite, por isso não telefonei para ela. Apenas fiquei ali, ao longo de não sei quanto tempo, lidando com aquilo.

A dor não me impedia somente de dormir, mas também de ficar quieta. Era muito desconfortável deitar de barriga para cima – apesar de parecido com cólicas menstruais, não era igual, e não ajudava deitar com uma bolsa quente na barriga, como costumo fazer com as cólicas menstruais. Era impossível estirar o corpo, fosse deitada ou de pé. Eu precisava me contorcer, e vocalizar. Ficar em posição fetal ajudava muito, em alguns momentos. Em outros, era confortável ficar sentada, meio dobrada. Passei muito tempo sentada abraçando meus joelhos. Mas, essencialmente, eu precisava me mexer. Em alguns momentos, o abraço do meu marido era uma grande fonte de conforto. Em outros eu não queria que absolutamente nada me tocasse.

E isso foi apenas um comprimido – eu não estava em trabalho de parto.

Não tomei mais o remédio. Mas aquele comprimido que, para o propósito em vista, foi aparentemente inútil (pois não tive mais sangramentos e meu ultrassom seguinte foi ótimo) na verdade talvez tenha plantado em mim uma semente muito mais importante do que eu pudesse imaginar. Aquelas poucas horas me fizeram encarar de uma maneira nova as discussões sobre atendimento obstétrico das quais eu apenas começava a me aproximar.

Sempre fui do tipo que não para quieta. Sempre odiei que me segurassem, que prendessem meus movimentos. Como poderia ter meu filho presa a uma cama?

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Gentileza


O enfermeiro entra na sala, para, me olha por alguns instantes com firmeza e bondade, e lança, um pouco teatral:

- Eu vos digo: boa noite!

Mesmo com enxaqueca, como não sorrir?

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Gravidez


Um dia, grávida, fui à casa de um amigo discutir uma proposta de trabalho com sua irmã. Era um colega de faculdade, eu não conhecia sua família. Não lembro bem se minha barriga já estava aparente, acho que começava a ficar mais pronunciada. Contei então da gravidez. Naquele momento, a notícia estava se espalhando entre os conhecidos.

(Desta vez, espalhou-se lentamente, ao contrário da primeira. Eu nunca seria o tipo de pessoa que, de maneira deliberada e planejada, aguarda os primeiros três meses para contar, já que pode “não dar certo” e é melhor ser discreto no princípio. Mas o fato é que, depois da experiência do aborto, recebemos a notícia de uma maneira diferente. Tudo parecia mais incerto e mais íntimo, não havia a vontade de espalhar a notícia aos quatro ventos. Não sei se é um sentimento mais maduro ou mais amargo, mas assim foi...)

Todos me parabenizaram. A mãe do meu amigo, que eu não conhecia, que eu jamais havia visto, ficou exultante e começou a contar o quanto havia gostado de suas gestações. Ainda me lembro vivamente dela falando como gostava de sentir “aquela barriga enorme, aquelas crianças crescendo dentro de mim”. Eu ri, espantada. Espantada!

Achei engraçado, excêntrico. Nunca me havia passado pela cabeça encarar a gravidez – a gravidez em si, o processo fisiológico, a sensação física – como algo positivo. Basicamente, a gravidez era um certo incômodo que é necessário atravessar para ter um filho.

Acho que levei muito tempo para processar aquele momento. Aquela mulher que eu não conhecia e de cujo nome já não me lembro provavelmente nem imagina com que gratidão penso nela hoje.

Eu ainda não sabia, mas naquela época uma chave começava a virar dentro de mim. Eu começava a me aproximar do meu corpo de mulher. A aprender a não negá-lo. Um aprendizado árduo, pois requer a desconstrução de toda uma história de negação do corpo, sobretudo do corpo feminino.

E não vai aqui nenhuma apologia à “gravidez de comercial de margarina”. Esta também é uma negação, na medida em que idealiza o processo. Há incômodos, objetivos, fisiológicos. Mas quando se trata de seres humanos, nada é puramente objetivo e fisiológico.

A gravidez (e também os momentos da concepção e do puerpério) é um momento absolutamente incrível para nos apropriarmos de nosso corpo, conhecê-lo, reconhecê-lo e amá-lo.

Realmente, que coisa incrível aquela barriga enorme, aquela criança crescendo dentro de mim.

Obrigada.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Pedaços


"Todos os dias quando acordo não tenho mais o tempo que passou.
Mas tenho muito tempo."

Essa foi uma das minhas músicas favoritas da adolescência, de chorar sempre que eu ouvia.

Ontem estava num hotel e peguei uma revista, dessas bobas de cortesia de sala de espera, e essas frases estavam lá. E pareceu estranhamente que era a primeira vez que eu olhava para elas. Aquilo que eu cantarolei (ou gritei, ao melhor estilo 16 anos) tantas vezes na vida se apresentou com o brilho da novidade diante dos meu olhos.

Tão interessante esse momento da vida em que a gente consegue ter pontos de referência suficientes do nosso passado para alinhavar uma história. Tão gostoso juntar os nosso retalhos nessa colcha inusitada e óbvia, porque tem a nossa cara. Tão reconfortante olhar para os nossos pedaços com carinho, até aqueles que a gente já pode jogar fora. E mais ainda aqueles que a gente pode recolher de volta dessa lixeira tão esperta que não apaga nada, só reserva.

Não gostamos de envelhecer. Mas envelhecer é belo.

("O mundo começa agora. Apenas começamos.")

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Chuva


Esta tarde fui andar de bicicleta no parque.

Choveu.

Fazia uns vinte e cinco anos que eu não andava de bicicleta na chuva.

Não me lembrava de que fosse tão bom.

Chorei.

E voltei para casa sorrindo.

domingo, 27 de setembro de 2015

Luto


A gente custa a processar os eventos, sobretudo os que importam. Ou, como querem as gramáticas, custa-nos processá-los. O tempo e a luta. Não é só que nos custa, a gente também custa.

Custou. Custei. Foram muitos meses digerindo a perda e acalentando a esperança.

Onde podemos chorar? Quando? Tenho a impressão de que é tão exíguo o espaço do lamento – nessa sociedade em que somente o sucesso tem lugar, ou a vida é tão dura que é preciso endurecer de volta –, que ele precisa forçar a porta, aproveitar as brechas, brotar valente como as flores que crescem no asfalto.

Na primeira festa infantil após o aborto, precisei correr para o banheiro sem cumprimentar ninguém. Bastou entrever as crianças brincando no pátio para que aquele sentimento subisse do estômago e explodisse em choro.

A viagem de campo do mestrado, há muito planejada, esperávamos fazê-la com a gravidez no meio, ou até com o bebê. Nenhuma das duas opções teria sido muito conveniente – talvez tenham sido planos um tanto mirabolantes. Mas levar conosco a sua ausência pode ter sido ainda mais difícil. Na ilha linda cheia de praias “boas para ir com crianças”, as famílias alheias doíam na nossa.

A cada ciclo menstrual, eu chorava com raiva daquele fluido sanguinolento que era o fracasso. E que um dia acabei aprendendo a reverenciar.

Eu estava à espreita da nova gravidez que viria calar aquela perda. Queria surpreendê-la na esquina, lançar a armadilha perfeita. Impossível deixar a intimidade simplesmente fluir: é preciso seguir um calendário. Impossível apenas fruir essa intimidade: é preciso cumprir uma tarefa.

Talvez o universo seja feito de acaso e sabedoria. Não a sabedoria transcendente. A sabedoria da célula. Uma memória de saúde e de vida que se agarra aos nossos neurônios e, valente como aquela flor no asfalto, nos obriga a aguardar até que estejamos prontos.

Eu vivia metade do mês imbuída da missão de ficar grávida – e do medo de fracassar –, e a outra metade como se estivesse grávida. Entre o fracasso e o não eu.

Foi preciso abandonar a vida que eu queria ter e retomar a vida que eu tinha, para poder seguir. Foi preciso voltar a beber e fazer sexo por diversão. Foi preciso me reapropriar de mim mesma, para poder gerar.

A nova gravidez só se apresentou quando fui capaz de terminar de chorar a anterior. E quando consegui finalmente voltar a gostar da mulher que eu era.

domingo, 6 de setembro de 2015

Andaimes


Frequentemente, passo as noites correndo para fugir de alguém ou procurando alguma coisa. É sempre muito estressante, e às vezes acabo subindo em escadas ou estruturas altas que me apavoram, e não sou capaz de descer. Tenho aprendido a acordar antes que a jornada me canse ou assuste demais, mas nem sempre consigo. (Talvez por isso eu deteste aqueles filmes com muitas peripécias, sucessões intermináveis de eventos que não caminham para o desfecho, complicando cada vez mais a situação. Eles me deixam exausta. Se houver narrador, me irritam – ou entediam – ainda mais.)

No entanto, também circulo por um mundo conhecido, espaços recorrentes onde a vida se desenvolve. Eles constituem um universo que habito. Eu o conheço, reconheço lugares e coisas, vivo nele. As casas de meus avós, como eram na minha infância; a casa de uma tia onde não vivi tanto assim, mas que por algum motivo me fascina; casas onde morei. Mas também lugares que, apesar de sua existência exclusivamente onírica, constituem um mundo muito concreto no qual diferentes histórias se desenrolam, às vezes ao longo de anos.

Atualmente, tenho um apartamento. Pequeno, como o meu apartamento. Ele integra enredos nos quais estou sempre procurando ou tentando implementar formas de acomodar melhor toda a vida ali dentro. Diminuto, está todo preenchido e organizado, de uma maneira que, apesar de às vezes non sense, faz sentido.

Há noites em que ele transmuta-se em um imóvel enorme, uma dádiva que não sei bem como se realizou, uma casa com inumeráveis cômodos onde se poderiam fazer incontáveis coisas. Mas ela não é minha, de algum modo. Os cômodos são embaralhados, labirínticos; seus formatos são inusuais e há portas e corredores estranhamente posicionados. Apesar da grande disponibilidade de espaço, nunca consigo organizá-lo de modo satisfatório. Limito-me a alguns poucos cômodos, às vezes apenas um quarto, como uma habitante de hotel. Não gosto dali, não vale a pena.

Volto a meu apartamento pequeno. Descobri que ele tem uma porta, nos fundos, a qual dá para um salão onde caberia outro apartamento inteiro. Eu não sabia da existência dessa área, ela não me pertence, não sei por que está ali. É como aqueles apartamentos térreos que abrem para uma área que é do condomínio, mas não se comunica com o restante do terreno, formando na prática um quintalzinho, o qual do ponto de vista jurídico não poderia ser apropriado privadamente pela unidade, mas que também na prática não será convertido em área comum. Um limbo.

O espaço principal do salão é quadrado, mas em sua porção direita, segundo a perspectiva de quem entra, há um dente na planta que amplia um pouco mais a área, abrigando duas saletas contíguas. A porta do salão posiciona-se em seu canto esquerdo, e à direita há uma parede toda de vidro, a maior delas, que se estende por toda uma lateral do quadrado até o fim das saletas; algumas vezes ele é aberto nas laterais, como certos terraços de sobrado.

Durante um tempo, houve ali apenas objetos abandonados antes de mim. Restos de uma reforma que alguém fez. Não sendo francamente meu, assim ficou, demorei a tomar alguma atitude quanto a esse espaço.

Houve depois uma época em que ele começou a servir de depósito para umas poucas tralhas minhas, embora não me lembre de como as fui colocando lá. Umas das saletas era a sala de costura da minha mãe. Mas fazia muito calor ali.

Um dia me dei conta de que a outra saleta estava repleta de vasos velhos com plantas ressequidas. Comprei outros vasos, com flores e pés de mexerica. Às vezes, Teresa me ajudava na escolha das flores.

Minha mãe não quis mais a sala de costura. Não sei bem por quê. Parece que houve algum conflito, mas no fim ela também pode ter achado que ali era quente demais. Lembro-me vagamente de tentar manter o lugar como sala de costura para mim, mas não deu certo.

Esses usos foram interessantes, agregaram possibilidades, mas não desafogavam meu apartamento. Até que decidi transferir para as saletas o meu escritório. Coloquei uma mesa comprida, de frente para a parede de vidro; fiz qualquer coisa na estrutura que envolveu a aplicação de rebites em uma esquadria de alumínio; instalei uma estante de madeira escura repleta de livros, uma poltrona de couro, um papel de parede urbano e contemporâneo, e um fio de lâmpadas coloridas dependuradas aqui e ali. Uma combinação um tanto bizarra de consultório de um psicanalista sóbrio, escritório de um freelancer descolado e quarto de uma adolescente. Não consegui adjetivar a adolescente.

Tenho trabalhado ali.

Quanto ao salão principal, hoje ele está limpo e abriga apenas (no lado oposto à porta de vidro, no canto esquerdo de quem olha da saleta e em frente à porta de entrada do cômodo) uma grande banheira de mármore esverdeado. Ela é muito rasa e muito bonita. Minha filha descobriu que adora banheiras, e queria ter uma em casa. Eu sempre quis.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Se dê o respeito


Uma mulher precisa se dar o respeito. Então, menina, se dê o respeito.

Hoje, quando for sair, vista uma roupa apropriada. Apropriada a seu humor, apropriada a seu desejo. Nada será mais apropriado que isso. E você certamente estará deslumbrante.

Não dê confiança a qualquer um. Dê confiança – e o que mais você quiser dar – apenas a quem você quiser.

Sente direito. Por exemplo, vá a um parque e sente no chão. Tire o sapato, passe o pé na grama. Às vezes é até bom deitar, alongar as costas, esticar as pernas, abrir o corpo. Se puder, sente de frente para o mar, ou em frente a uma revista. Vá sozinha a um café, ou a um bar, e sente-se à vontade. Faça-se confortável e aproveite sua companhia muito bem sentada.

Você precisa se cuidar. Faça as unhas, pinte o cabelo. Ele já é bonito, claro, mas com tantas cores e texturas disponíveis, você pode se divertir muito. Ou não faça nada disso. Apenas tome um banho e sinta o carinho da água capaz de refrescar igualmente todas as peles, tenham ou não pelos e rugas. Divirta-se com seu corpo.

Não estrague suas festas de família se aborrecendo com a tia que pergunta se você não vai enfim arranjar um namorado ou se casar. Ela só quer o seu bem. Explique que finalmente você está numa relação séria, e que a moça vai acompanhá-la ao noivado do seu primo, no próximo mês.

Uma mulher precisa mesmo se dar o respeito. Pois ele não nos é oferecido a priori, nem dado de graça. E não há maior respeito próprio do que viver exatamente do jeito que você quer.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Delícias da manteiga


Ontem, pela primeira vez, fiz brioche. E descobri que pela primeira vez comi brioche, pois nada que eu já tenha comido antes com esse nome era remotamente parecido com o que fiz. Nem sei se é mérito meu – suspeito que qualquer coisa feita com aquela quantidade de manteiga seria divina.

Fiquei pensando na frase da Maria Antonieta, espantada que houvesse brioches no século XVIII, antes do advento da batedeira elétrica. Os padeiros da corte deviam ter músculos de estivadores.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Nascer


Quando nasce um bebê, nasce uma mãe.
Ser nascente que é, é preciso cuidá-la, para vicejar.
É precioso cuidá-la.
Acolher, recolher, colher.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Rotas rotas


Sempre às voltas com a ideia de viabilizar tarefas demais em tempo de menos, reservo diariamente precisos 30 minutos para buscar minha filha na escola. Normalmente gasto de 20 a 25 deles no percurso, embora às vezes chegue raspando nos 29 e, em dias muito fora da curva, estoure o limite. Aí, pago multa de atraso...

Vou de carro. Como a escola é longe e paciência não é a minha virtude, aprendi a sacar o padrão do trajeto, saber onde está congestionado, prever e pressentir problemas, e variar a rota.

Mas o que tira do sério o tipo de pessoa sem lugar no céu que vos fala não são os congestionamentos previstos e previsíveis. São os eventos inusitados ou fora do padrão que atentam contra a eficiência do trânsito. Tipo o rapaz que resolve deixar o carro atravessado na rua durante 30 segundos para abrir o portão e – veja que audácia – me segura por 30 segundos parada na rua dele. O caminhão do lixo na rua estreita, me obrigando a ir bem devagariiiinho. Aquela senhora que dirige uma vez por mês, procurando a casa de portão amarelo, justamente na minha frente. Moleque jogando bola nos arredores e me obrigando a ir devagar e tensa pra não atropelar nem bola nem menino. Briga de cachorro daquelas que parece que tem saci no meio.

Hoje foi um dia particularmente cheio desses eventos no caminho. O mais inusitado deles foi um velhinho de andador no meio da rua. Já era a segunda mudança de rota que eu fazia para evitar trechos lentos, e aí caí no velhinho. Ruazinha estreita de bairro, carros estacionados dos dois lados, e o velhinho, de andador, bem no meio da rua.

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Dependendo do caminho, tem bastante ciclovia. Embora não haja muitos ciclistas nelas, há alguns. Em certos trechos são ciclistas com roupa de fitness e capacete. Em outros, ciclistas que aparentam ter optado pela bicicleta como transporte barato, de calça jeans manchada de tinta, mochila, pacotes. Mas a ciclovia é povoada também por pedestres, gente passeando com animal, puxando carrinho de material reciclável, andando de skate. Enquanto há quem diga que a ciclovia ocupa um espaço inútil porque não há ciclistas, essas presenças revelam que não é só para os ciclistas que falta espaço nas ruas.

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A escola não se cansa de mandar e-mails pedindo aos pais que dirijam devagar quando vão pegar seus filhos, e não façam manobras em frente à escola. Crianças não evitam carros, carros é que têm de evitar crianças. No clima de aproveitar muito eficientemente o meu tempo, sempre com economia e máxima produtividade, tive de aprender a dirigir com calma na rua da escola. Só na rua da escola?

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O velhinho, de andador, no meio da rua. Comecei aquela inspiração profunda que a gente realiza para logo em seguida bufar de raiva (veja bem, já era minha segunda mudança de trajeto em busca de uma rota mais fluida). Mas então comecei a rir. Um velhinho de andador no meio da rua!! Não sei bem se ri do inusitado de haver um velhinho de andador no meio da rua ou se ri de mim mesma, se ri de nervoso, se ri do meu próprio esboço de raiva. Porque você precisa ser uma pessoa muito rabugenta pra ter raiva de um velhinho de andador, sozinho, na rua. E no mesmo movimento em que ri da minha rabugice absurda, vi que meu riso era deslocado, me preocupei com o velhinho. Esperei longamente ele terminar o trajeto que me impedia a passagem, passei, perguntei se precisava de ajuda. Ele negou, parecia lúcido, fui embora meio desconcertada. O velhinho estava no lugar errado? Qual seria o lugar do velhinho?

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Cheguei raspando nos 29. Não paguei multa.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Orléans


Há um ângulo preciso em que toda a catedral se alinha, em sua bela simetria. Ela nos agarra pelo olhar e posiciona nossos corpos com exatidão. Ela nos alinha, nos coloca na linha. Deslumbramento e dominação.

Nada de omelete às cinco da tarde. Un café, alors...

Ouço vozes.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Curvas na estrada


Hoje me dou conta de que o início da minha vida como mãe coincidiu com o momento em que terminava a minha vida na faculdade, e entendo que isso foi muita coisa ao mesmo tempo.

Passei 17 anos – praticamente toda a minha vida adulta – dentro da universidade. Nunca morei tanto tempo em uma mesma casa, nem de longe. Pensando bem, até hoje, ela é a maior permanência que tive na vida, com exceção da minha família e alguns muito raros amigos.

É de entender por que terminar o mestrado foi tão difícil. Sem saber, eu sabia que entregá-lo seria colocar o ponto final nessa relação.

E ela me deu muitas coisas. De certa forma, ela me deu uma identidade. Eu achava que passaria a vida toda ali, que seria pesquisadora, professora. Não serei, não quis mais.

Fui abrindo mão de um caminho que tinha roteiro, de uma identidade. E ainda estou à procura do meu outro caminho, minha outra cara, minha outra casa.


domingo, 5 de abril de 2015

Bed time


Estou terminando de ler Guerra e Paz. Apesar da celebridade da obra, confesso que não sabia bem do que tratava, comecei a ler assim no escuro, e fiquei surpresa em encontrar, ao lado de páginas de estratégia militar, descrições da vida familiar mais íntima. Acabo de ler uma cena em que as crianças dizem boa noite aos adultos na sala e se retiram para dormir. Lembro daquela cena fofa de A Noviça Rebelde em que os rebentos da família Von Trapp dizem boa noite tão charmosamente e se recolhem um a um, deixando a festa pela escadaria.

Todos foram deitar há quase duas horas, e eu ainda não consegui dormir. Pegar no sono é uma questão que me acompanha ao longo da vida. Ou melhor, não pegar. Hoje brigo menos com a minha insônia: tento entendê-la como um aspecto da minha pessoa, que se reveste de diferentes significados ao longo do tempo. Atualmente, ela é às vezes a oportunidade de ficar só, de voltar-me a mim. Aquele momento em que, tendo a filha ido dormir, posso me focar com mais tranquilidade em certas coisas, relaxar, saber que posso fazer algo sem ser interrompida.

Sempre ouvi que é importante as crianças terem uma rotina sólida e própria, e que elas precisam ir para a cama mais cedo, pois isso é essencial para o seu desenvolvimento saudável e também para que os pais tenham esse momento de sossego no encerramento do dia. (E para que possam ser um “um casal”. Essa é uma questão que bem merecia um texto. A “busca pelo casal perdido” me parece uma luta perdida: há que se inventar o novo casal...). Bem, em nossa casa, nada disso acontece. Nosso cotidiano e disposições pessoais não convergem para isso. E não acreditamos nessa premissa absoluta que liga o desenvolvimento saudável do ser humano a essa concepção de rotina da criança.

Penso que é sempre bom ver com alguma desconfiança (isto é, com sentido histórico e social), as recomendações de especialistas e autoridades sobre o que é saudável. A recomendação de nunca comer manga com leite, por exemplo, mais do que zelar pela saúde de quem quer que fosse, cuidava de garantir que os escravos consumissem as abundantes mangas dos engenhos e evitassem o leite, alimento então caro e raro, reservado aos senhores. Podemos nos perguntar: é realmente o desenvolvimento saudável das crianças que requer que elas tenham uma rotina rígida e própria (própria no sentido de que é apartada da do resto das pessoas, veja bem, e não no sentido de que emana da criança), ou somos nós, pais, que precisamos que elas durmam mais cedo, para podermos encerrar nosso dia mais sossegados? (E com esse questionamento não tenho a menor intenção de desmerecer as necessidades dos pais, mas há que encarar as coisas como são, e agir de acordo.)

De minha parte, não me parece uma relação adequada colocar minha filha sozinha em um quarto escuro para dormir no horário estipulado por mim, a fim de que eu possa “ter a minha vida”, a pretexto de que isso é necessário para ela ter um desenvolvimento saudável. Então fazemos como dá, e isso às vezes significa dormir todo mundo na mesma hora, porque quando ela dormiu eu já não tenho mais ânimo para nada; em outras, dar uma esticada até mais tarde, porque a criança dormiu mais tarde do que me seria conveniente e eu quero ter o meu “depois”. O que pode significar insônia, textos escritos na madrugada...

E fico pensando como eu gostaria de conhecer mais a história da vida privada infantil. De que modo se lida com essa questão nas diferentes sociedades do mundo hoje, e nos diferentes tempos históricos? E então voltamos a Guerra e Paz e A Noviça Rebelde. Nessas representações da vida aristocrática, as crianças se retiram lindas e fofas na sua “bed time”, deixando assim os adultos à vontade para as atividades de adultos. Mas – isto é crucial! – elas vão com seus preceptores e governantas. Os quais, por sua vez, devem provavelmente dormir tarde, como eu, fruindo somente depois de acomodar as crianças o seu momento de sossego. Essa mãe aristocrata pode entregar-se a sua vida de adulta não porque as crianças foram dormir, mas porque elas estão sob o cuidado alheio. A mãe sem preceptores, governantas e babás, para ter o tal sossego depois das crianças, pode desdobrar-se a fim de fornecer ela mesma o cuidado ao filho e fruir seu momento individual em seguida, se tiver energia para isso. Ou pode colocar seu filho no quarto, fechar a porta e deixar que ele arranje por conta própria os meios para tranquilizar-se diante da solidão e entregar-se ao sono. Mas para isso precisa acreditar que colocar seu filho sozinho no quarto escuro é bom para ele, e não apenas para ela. Fazendo a fama e a fortuna de todo tipo de especialista treinador de bebês.

Cada família pode encontrar o caminho, a estratégia, o instrumento que melhor lhe cabe. Acho que eles são muitos e variados. Tenho aprendido duramente que os melhores resultados vêm da mais profunda sinceridade, do reconhecimento e respeito daquilo que pensamos e, sobretudo, sentimos. Recomendações enrijecidas e generalizadas servem mais para fragilizar nossa própria capacidade de reconhecer nossas necessidades e produzir nossas soluções, do que para nos fornecer de fato soluções satisfatórias.

Na nossa fantasia da criança bem educada – reforçada por tantos filmes e especialistas –, recorta-se o modo de vida de uma elite que pode compartilhar ou delegar o cuidado da criança, e define-se isso como normalidade. E nós, vivendo em circunstâncias bem diferentes, nos exaurimos correndo atrás de uma pretensa normalidade que não tem nada de normal. Aquelas crianças impecáveis subindo a escada sozinhas para dormir não estão sozinhas. A babá as observa e as segue. E nós, que temos de lidar muitas vezes sozinhos não só com as crianças mas também com as escadas, ficamos aqui embaixo nos perguntando o que fizemos de errado, já que nossos filhos não são tão impecáveis...

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Torta de liquidificador


Um jantar contra o desperdício de comida, aproveitando as sobras da geladeira (na minha época, seria economia doméstica, mas hoje acho que colocariam como educação ambiental).

Coloco uma tábua para mim e outra para ela, pois picar ingredientes é, atualmente, a brincadeira mais esperada de todas as noites (desenvolvimento da coordenação motora fina).

Começamos com a sobra dos legumes assados do jantar de ontem. Com a faquinha redonda e quase sem fio, ela vai picando cada um em pedaços ainda menores e, no afã de picar infinitamente, preciso lembrá-la de que não podem ficar pequenos demais – senão queima, não é, mamãe? Mostro um exemplo: devem ficar deste tamanho (reconhecimento de formas e proporções).

Juntamos um pedaço de queijo branco quase perdido e uma bandeja de salame fatiado que ia pelo mesmo destino (aprendendo diversidade e tolerância, nada de “tribos”, afinal aqui em casa a gente gosta de legumes mas não é nada macrô). Enquanto pica, vai comendo pedacinhos de brócolis e couve-flor (nem é educação alimentar, é prática sensorial hedonista: ninguém ainda contou pra ela que a gente come legumes porque são saudáveis, e a menina segue achando que são apenas gostosos).

Deixo-a preparando o recheio e vou começar a massa (trabalho em equipe). Ela está muito atenta a sua tarefa (desenvolvendo a capacidade de concentração – esses especialistas que dizem que uma criança só consegue se concentrar numa tarefa por três minutos deviam puxar uma cadeira e observá-la desfazer uma cabeça de alho, esse brinquedo de montar que os adultos usam pra temperar comida). Vou colocando tudo no liquidificador, e ela se mantém atenta a sua tarefa. Mas quando vou quebrar os ovos, titubeia: quebrar ovos é tão legal que talvez valha a pena parar de picar (aprendendo a enfrentar dilemas e tomar decisões).

Observo que o salame está difícil, e concluo que foi ambição demais praquela faca cega – o salame a mamãe vai ajudar a terminar, está bem? (aprendendo a lidar com limites e frustrações)

Vamos colocando toda a parte picada em uma travessa. Um pouquinho de sal e pimenta-do-reino. Eu coloco, mamãe! (opa, desenvolvendo a individuação, ai meus sais). Um pouquinho de cheiro verde (absorvendo as práticas das gerações anteriores – gastronomia às vezes é legal, mas a comida também é o bastão da avó). Misturamos tudo bem misturado, sem deixar cair fora da tigela (desenvolvimento da lateralidade, dentro e fora, na frente, ao lado).

Hora de colocar tudo na travessa. Primeiro um pouco de massa, depois o recheio, distribuído em colheradas, e depois o resto da massa (noções de sucessão, todo e parte). No forno você não pode mexer, ele queima (olha o tal do limite aí, gente!, e até umas noções de termodinâmica, só pra incrementar a brincadeira, vai...).

Agora precisamos esperar a torta assar. Demora? Demora! (aprendendo a esperar, claro!)

Enquanto esperamos, não custa misturar umas alfaces e picar aqueles aspargos pra uma salada. Não amassa o aspargo, que meleca! (experimentado diferentes texturas). Mas eu só vou comer torta, tá bom, mamãe?, não quero salada...

No final, comeu torta e salada, porque para incentivar uma criança a comer salada, nada melhor do que uma mãe comendo salada com prazer e alardeando que não vai sobrar nem um pedacinho...

****


Aí colocam as crianças em um quarto forrado de EVA, cheio de plástico colorido e com barulhos repetitivos, e chamam isso de “ambiente seguro”, “atividade lúdica” e “brinquedo educativo”. Faz-me rir, como dizia meu pai.

sexta-feira, 20 de março de 2015

buracos


desilusão
é o melhor que pode nos acontecer
perdem-se as ilusões
fica um vazio
a ser preenchido
com tudo o que pode ser

"Sei que tenho de gerar uma estrutura cheia de buracos
para que sempre seja possível chegar à página, habitá-la."
Valeria Luiselli


terça-feira, 17 de março de 2015

Limites


Em meio à crônica falta de tempo que caracteriza o novelo dos meus dias, há muitas coisas que eu não faço. Mas há uma prática que tento manter de maneira quase intransigente. Eu faço as unhas. Há um fio encantado que une o estado das minhas unhas ao nível de tranquilidade que sinto diante da vida.

Hoje, enquanto observava o trabalho eficiente da manicure (e daquelas mulheres interessantes que saem na revista Claudia) e matutava o que fazer para o jantar, senti uma grande lassidão e má vontade. Enfado.

Aproveitei a padaria ao lado para resolver o jantar com sanduíches. Em vez de fazer um jantar apropriado.

Saindo da padaria, fui dominada por uma crise de choro suave e doída. Chorei de culpa, raiva e compaixão por mim mesma. É interminável o meu adeus à mulher sem falhas que eu jamais fui.

Minha filha, informada de qual seria o jantar, abriu um largo sorriso.

segunda-feira, 2 de março de 2015

via sinuosa


o malabarista com os malabares
malabariza no farol

pra cima
pra baixo
pro lado
na mão 
na cabeça
na ponta do nariz

tanto mexe
que me remexe

e eis que meu cérebro malabarizado
leva o carro pro lado errado

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Perder


Da primeira vez que fiquei grávida, foi tudo direitinho, tudo dentro dos planos.

Eu tinha um relacionamento de muitos anos, um companheiro de amor e de vida. Nós sempre acalentáramos o plano dos filhos, mas era para depois. Um ano antes de engravidar, no meu trigésimo aniversário (sim, sim, minha vida é cheia de clichês...), passei por um momento estranho e arrebatador, em que a perspectiva de uma gravidez subitamente deixou de ser um receio e ganhou naturalidade. A ideia foi acolhida, o desejo amadureceu.

Houve preparativos práticos, também. Fui ao médico, fiz exames, tomei ácido fólico por três meses. Encaixei o cronograma do mestrado com a gravidez e a licença-maternidade. O marido pensou num modo de tirar férias após o nascimento do bebê.

Engravidei na primeira tentativa. Ficamos espantados, orgulhosos, eufóricos. Saímos para comemorar, e na mesma noite começamos a espalhar a notícia.

Num piscar de olhos, somos especialistas em beta HCG, ultrassonografias, placentas e sacos gestacionais. Sei tudo sobre os sintomas do primeiro trimestre, e felizmente quase não os sinto.

Por volta da 10ª semana de gestação, o exame de ultrassom vem decretar a ausência. A ausência do que era o mais presente em nós. Não há nada lá. O embrião não se desenvolveu. Gravidez anembrionária, aprendo. Ovo cego. Detesto esse termo.

O fluxo de instantes da vida não prevê espaço para o momento inesperado. Nunca estamos prontos. O incêndio nos surpreende de pijama, comendo sopa de pacotinho. Era no meio do dia. Almoçamos. Meu marido foi trabalhar, eu fui para casa. Não trabalhei. Fiquei pesquisando sobre aborto espontâneo na internet.

Na mesma tarde, uma amiga vem me ver, e eu lhe digo: “Hoje me tornei adulta. Perdi um filho.”

Me lembro claramente desse sentimento. Mas a situação técnica não era essa. Ovo cego, diz o Google. O embrião nunca se formou. Penso em parede cega – aquelas áridas laterais de prédio sem janelas, viradas para o nada. O nada. Não havia bebê. Sensação de ser traída pelo próprio corpo. Como minha barriga me deixava acariciar o bebê que não havia, como eu podia não saber?

Dizer “Quando perdi o bebê” me foi impossível por muito tempo, parecia que não era honesto ou preciso. Assumi a frase “Quando tive o aborto”. Mas hoje começo a me permitir dizer que perdi o bebê. Aceitar que perdi o bebê.

Eu perdi o bebê, aquele que eu acalentava, que estava dentro de mim, embora não crescesse no meu útero.

Os dias que se seguem são de um atordoamento estranho. Fico ressentida com o marido que não tem vontade de falar sobre o assunto. Eu quero falar. E chorar.

Tive um aborto espontâneo dias depois. Começou no banheiro de um auditório, estávamos num show de música. Saio do banheiro chorando. Seria o primeiro de uma série de choros contidos em lugares públicos. Durou alguns dias. O sangramento. O choro durou mais.

Não precisei de curetagem, clínica, hospital, nada. Um aborto espontâneo e completo. Útero limpo. Coração em frangalhos.

O filho que eu não tive veio me lembrar que a vida não se planeja. Podemos nos preparar, podemos acalentar o vindouro e deixar tudo arranjado para acolher sua chegada. Aprendemos no processo. Mas o caminho à frente nunca foi percorrido. Sempre.

O filho que eu não tive ajudava a preparar a mãe que eu seria.


terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

(In)defectiva


A ginecologista nova não pergunta de ginecologias. Pergunta como está a vida. E ela fala sério, não se trata de "Tudo bem" e um sorriso amarelo. Não dá folga.

Lá pelas tantas estou chorando. (Ela tem lenços à mão, sabe de seus talentos.)

- Confesso que ando às voltas com o fantasma do corpo defectivo. E se tooodos os meus filhos ficarem sentados? Eu fiquei sentada. Ela ficou sentada. Talvez eu tenha uma bacia errada, uma coluna torta, uma maldição qualquer que sentará todos os meus bebês.

- Bebês sentados nascem bem, e até mais rápido. Se todos os seus filhos ficarem sentados, talvez seja porque você é uma mulher ótima para parir bebês sentados.

Há quem alimente nossos fantasmas. Encontrar quem ajude a exorcizá-los é uma dádiva. Ou uma conquista.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

O nome dos bois


Tem gente que gosta de marca. Lacoste, Prada, Gucci. Peppa, Hello Kitty, Elsa.

Mas eu, que sempre fui mais de camiseta, bolsa, óculos de sol, prefiro porquinha, gatinha e princesa.

O dia depois de hoje


Calor escaldante.

Com a roupa mais fresca que o ambiente paulistano me permite circular por aí, deixo a filha na escolinha de férias e vou procurar um lugar próximo para me aboletar com o laptop pelo resto da tarde.

Dentro da padaria me sinto a salvo. Verdade que o ar-condicionado é quase neutralizado pelo calor que sai da cozinha, do bufê de comida quente e da multidão que circula com seus pratos pra lá e pra cá, mas esse "quase" me faz sentir que a vida pode ser normal.

Se eu estivesse em casa, certamente tomaria três banhos ao longo da tarde. O vizinho ficaria indignado com a minha falta de consciência sobre a crise da água (que ele pensa que é culpa minha e da falta de chuva, e não do governador que ele elegeu).

Mas estou na padaria. Tentando levar uma vida normal. Ligo o computador. A internet não funciona. Tento telefonar para conseguir ajuda sobre o sinal de internet, mas o sinal do celular também não está bom. Trabalho como dá. Penso naqueles filmes de gente que tem transmissor de rádio e conhece código Morse.

Levanto pra ir embora e espio pela vidraça. O céu está com aquela carranca avisando que eu não devia tentar andar pela rua no fim da tarde. Olho o carro: esqueci os faróis acesos a tarde inteira.

Pago. Saio da padaria. O carro liga, ufa. Pego a filha na escola sob os primeiros pingos gordos de chuva. Que bom, vai refrescar um pouco.

Decido parar e comprar uma fita adesiva para remendar a tela contra mosquitos da sala. Esses pernilongos não respeitam nada, meu deus. Tento avisar o marido que vou demorar um pouquinho mais, mas o telefone ainda não funciona.

Uma árvore cai na rua da loja. Via bloqueada não se sabe por quanto tempo. Fico "presa" ali por três horas, tentando distrair uma criança de três anos. Pão de queijo, suco de manga. O liquidificador funciona. Mas é pelo gerador, pois na verdade a área está sem energia.

Tiram a árvore. Vou enfim para casa por ruas quase alagadas, lentas, de semáforos apagados e caídos.

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Este verão em São Paulo está rescendendo a filme-catástrofe de Hollywood. Não se espante se o Will Smith cruzar com você na rua, ou o Morgan Freeman aparecer fazendo pronunciamento na TV. Se você tiver energia e sinal de TV, claro.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Férias


Aproveitando o primeiro dia do ano para fazer uma confissão bombástica: eu não gosto de praia.

Vamos ser francos: gosto de passar o dia à toa, tomando caipirinhas e comendo peixe frito. Mas, se for na sombra e não tiver areia, tant mieux!

domingo, 7 de dezembro de 2014

De olhos abertos


Eu não sou uma pessoa mística. Mas Teresa nasceu exatamente como eu imaginava: parecia que a menina tinha mandado seu anjo da anunciação carregando retrato. Cabelos escuros, olhos grandes e abertos. Muito abertos. E firmes. Nunca teve olhos de recém-nascido: já veio encarando o mundo de frente. (Vai ver conhecia o poema.)

Também nasceu de unhas compridas, a pele descamando. Uma enfermeira disse à minha mãe que era porque passou do tempo. Ela não passou de nada. Nada lhe passa.

Ficou sentada, ninguém sabe por quê. A despeito da yoga, a despeito da acupuntura, a despeito da tentativa de versão cefálica. Foi até o meio e voltou. Ficou sentada. Decidiu que eu teria de me haver com aquilo. (Não tinha eu também ficado sentada? Então...)

Não bastasse a posição pélvica, ela soube reivindicar o tempo que lhe era de direito. Às 39 semanas, rompi com a obstetra que me acompanhara e que decidiu, na terça-feira, que quinta era um dia conveniente para a cesárea. Em duas semanas, falei com mais médicos do que falara nos últimos dois anos. Às 41 semanas ela veio para o meu colo. Sem trabalho de parto. Na cesárea não planejada, desplanejada, replanejada.

Parece que a menina que me olha nos olhos e diz o que quer tem seus próprios planos.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Para falar de desmame


Teresa parou de mamar. Encerramos nossa amamentação.

Poderia dizer que desmamou (e desfraldou, aliás...). Mas eu detesto essas palavras. Não sei bem por quê. Neurose de mãe superprotetora que não quer que a filha saia de baixo das asas. Receio da ideia de estar tirando alguma coisa dela. Recusa em fazê-la objeto de um outro ser que lhe impõe uma falta, uma carência.

Ela conquistou seu desmame e seu desfralde. Não foi desmamada nem desfraldada. Ela está crescendo (preciso dizer que a menina cresce mais rápido que o tempo), e assim coisas novas podem entrar em sua vida, como a capacidade de comer de tudo, de dormir sem sugar, de ganhar o banheiro.

Daí que um dia, contando a uma amiga que minha filha não mamava mais, fiquei procurando uma frase para dizer em vez de “Foi um processo bem natural...” Ela ficou um pouco espantada com a minha recusa em relação à palavra “natural”, hoje tão frequentemente associada a apreciações positivas.

Dia desses li qualquer coisa em qualquer lugar sobre pesquisadores terem identificado comportamento homossexual em animais. A ideia era que esse é, portanto, um comportamento muito “natural”, logo não deveria causar escândalo que seja observado entre seres humanos. A classificação de “natural” legitima o ato. Se é natural, devemos respeitar, pois a natureza não é boa nem ruim (embora haja quem diga que ela é sábia), a natureza apenas é – e quem seria o insano a se rebelar contra aquilo que apenas é? Bem, a mim me parece que o comportamento homossexual entre seres humanos é legítimo não porque ele é da natureza, mas porque é da humanidade. Porque é uma realização do afeto e da sexualidade humana. Porque é um dos caminhos socialmente construídos para o estabelecimento de relações humanas, para a satisfação e crescimento mútuo dos envolvidos.

Seres humanos não são naturais. E o que dizer depois da desfaçatez de lançar assim uma frase categórica para cuja sustentação eu não tenho repertório filosófico? Nós temos fisiologia. Temos instintos. Mas conquistamos a capacidade de refletir de maneira inédita sobre nossa própria existência e sobre a alteridade. E sobre nossa fisiologia e nossos instintos. A individualidade iluminista e liberal instrumentalizada pelo mundo do dinheiro e do trabalho (cá estou eu metendo-me em filosofias que não conheço) alimenta uma atitude aparentemente libertadora de reivindicação do natural. Porque algo precisa se opor ao sufocamento do corpo, da fisiologia e do instinto sob a lógica da máquina e do relógio.

Mas essa oposição não pode ser a reivindicação do natural. O natural é aquilo que não somos mais, e já foi dito que a história só se repete como farsa. Se estamos para utopias, a minha é a do humano, não a do natural, a da realização plena do humano. Seja lá o que isso for.

(A expressão “parto natural humanizado” revela bem que o “seja lá o que isso for” é algo que ainda não sabemos bem o que é. Talvez a possibilidade de um atendimento à mulher que constitua de fato um caminho em direção a essa utopia seja algo tão inimaginável que ainda não se pôde nomear.)

E nessa mesma trilha vem o “desmame natural”, entendido como aquele que respeita os ritmos da mãe e da criança, que respeita as fisiologias e as necessidades mais íntimas daqueles dois seres.

Eu acredito que vivi o processo de amamentação da minha filha com a profundidade que a expressão “necessidades íntimas” sugere. O que ele me fez descobrir a respeito de mim mesma e o que me permitiu refletir sobre a relação entre pais e filhos foi impressionante, para mim. E o fim dessa amamentação se estabeleceu de maneira gradual, lenta, penso que respeitosa para nós duas e, até, prazerosa e divertida.

E isso não foi natural coisíssima nenhuma!

Foi construído. Foi construído pela persistência para que a amamentação se estabelecesse. Foi construído nos primeiros dias, quando ela não conseguia mamar e aceitou o leite ordenhado oferecido pelo pai. Foi construído naquelas mamadas doloridas. Foi construído naquelas mamadas prazerosas, de troca de olhares profundos. Foi construído quando fazíamos nosso mamá no sling, na yoga, no bar. Foi construído quando entendi que os infinitos despertares noturnos não eram bons para mim. Foi construído quando me irritei com a demanda que me parecia grande demais. Foi construído quando parei de interromper refeições e outras coisas importantes para amamentar. Foi construído quando entendemos que podíamos jantar e conversar juntas, e que isso também era gostoso. Foi construído quando percebemos que brincar na festa podia ser mais gostoso que mamar na festa. Foi construído em cada momento em que ela percebeu que se precisasse mesmo, poderia mamar no meio da noite, da refeição ou da festa. Foi construído em cada noite em que a amamentação era necessária para trazer o sono, e em cada noite em que dormimos cantando. Foi construído a cada vez que ela mamava um tiquinho, ria porque o leite tinha acabado e pedia o outro peito. Foi construído a cada noite em que contei a história da menina que não sabia comer e foi crescendo e agora sabia, e ela enumerava todas as coisas que já sabia comer. Foi construído até o último momento, quando nossa amamentação se encerrou quase que com uma gargalhada.

Isso não é natural. Precisamos de outra palavra. Isso é uma busca deliberada por autoconhecimento e disposição consciente para se ligar ao outro. Isso é humano.

Teresa parou de mamar. Encerramos nossa amamentação. Da última vez, ela tentou, começou a rir desabridamente e lançou “Não tem nada, né, mamãe? É porque o peito sabe que eu já sei comer.” Assim encerramos essa fase da nossa relação: juntas e rindo.

Que sejamos capazes de caminhar sempre assim, minha filha.

domingo, 2 de novembro de 2014

A criança e a palavra, ou por que menina também pode falar palavrão


Esses dias assisti a um vídeo de uma campanha sobre violência contra a mulher, em que meninas vestidas de princesa – com direito a cetim cor-de-rosa, tiara e purpurina – enchem a boca de palavrões, bem daqueles que a mamãe e a professora não deixam a gente falar, para lançar uma provocação: seriam esses palavrões mais chocantes, prejudiciais e ofensivos do que uns tantos outros que têm trânsito livre por aí, como desigualdade salarial, violência contra a mulher ou estupro? Para arrematar, um garoto também vestido de princesa entra em cena disparando gírias tipicamente masculinas, para esculhambar o tratamento que os homens dão às mulheres.

Não sei da efetividade da campanha, mas a pegadinha funciona: as pessoas ficam escandalizadas com a boca suja da criançada.

É impressionante como a sociedade é prescritiva em relação ao uso da língua. Há muitos anos, quando eu era professora de Língua Portuguesa, um colega, que atuava de maneira muito estreita com o movimento pela reforma agrária no Brasil, veio conversar comigo sobre sua vontade de criar um projeto para desenvolver as capacidades de comunicação e expressão dos trabalhadores rurais com quem ele militava. Ele se preocupava, como de costume, com o fato de que aquelas pessoas não dominavam a norma culta e isso as prejudicava de alguma forma. Emprestei-lhe um livro do Marcos Bagno, que eu adoro, chamado Preconceito linguístico, em que o autor discute e demonstra o quanto nossa apreciação sobre a “boa língua portuguesa” é preconceituosa e equivocada, e o quão político isso é (ler o livro é tarefa prazerosa para uma sentada, pois é curtinho e plenamente acessível a não linguistas). Isso mudou a perspectiva do meu colega a respeito do projeto que vislumbrava.

Esse preconceito tão amplamente arraigado em nossa sociedade é propagado de maneira sólida inclusive pela escola, instituição supostamente encarregada de ampliar nossas possibilidades de conhecer, questionar e produzir o mundo. Desde muito cedo, procuramos moldar a expressão linguística das crianças – indicando o que é certo e errado, feio e bonito, o que pode e não pode –, com o mesmo tom de quem difunde preceitos morais. Em minha opinião, fariam melhor os pais e a escola se procurassem proporcionar aos pequenos a experiência da complexidade da linguagem (já seria muito bom se não se esforçassem tanto para bloqueá-la, porque as crianças acham por si mesmas muitos caminhos para alcançá-la). São muitos os registros, os jargões, os dialetos; todos compõem a complexidade da língua; todos têm razão de ser; cada um deles que conhecemos acrescenta algo à nossa capacidade de expressão e de apreensão do mundo. Isso não significa que precisemos ou devamos abdicar do papel de mediação e até de proteção que o processo educativo implica – eu posso evitar que minha filha assista a cenas de sexo explícito na televisão, mas nem por isso vou dizer a ela que sexo é feio.

A literatura vive entre o poder e o limite da palavra. Toda uma legião de poetas românticos debateu-se com uma língua dilaceradoramente incapaz de dar voz a seu sentimento. Graciliano Ramos descobre em um de seus meninos o espanto e o temor de se deparar com o desconhecido, não só o ainda não visto, mas o inomeado: “Livres dos nomes, as coisas ficavam distantes, misteriosas.” A criação e o aprisionamento são as prerrogativas contraditórias da palavra, entendeu a Joana de Lispector: “É curioso como não sei dizer quem sou [...] Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto, como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo.” Guimarães Rosa viu tantas possibilidades na língua que lhe foi legada, que misturou tudo e fez outra.

E nós, pais e educadores, com a pretensão de estar bem formando o que virá, nos amesquinhamos apontando “feios” e “errados”... Considero aterrorizante que a nossa educação linguística – ou seja, a educação relacionada a uma prática social de tamanha amplitude e diversidade – tenha como referência e horizonte a definição e o domínio de um padrão muito restrito e uniforme, e a supressão e estigmatização de tudo o que não corresponde a ele.

Na ânsia de formatar o comportamento aceitável, criamos para as crianças uma prescrição altamente restritiva sobre o uso da língua. Criamos zonas proibidas da linguagem como criamos zonas proibidas do corpo: “Tira a mão daí”, “Não é assim que se fala”, “Não fala isso, que é feio!”. E ainda mais para as meninas. Em nosso imaginário e nossa prática marcados pela dominação masculina, do mesmo modo como a manipulação do próprio corpo é mais aceitável quando observada em meninos, a liberdade de manipulação da língua também é mais ampla para eles: o palavrão lhes cabe melhor (e o vídeo das meninas “boca suja” sabe disso, tanto que o garoto não fala palavrão – chocaria muito menos , mas adota ironicamente gírias e expressões tidas como masculinas). Meninas não correm, meninas não gritam, meninas não falam palavrão. Às mulheres cabe um espaço restrito, um corpo restrito, uma língua restrita.

A língua, prática social, criação permanente, coisa viva, alimenta-se daquilo que fomos capazes de forjar, e nos permite apreender o que há. Deusa de duas caras, oferece-nos os instrumentos e os obstáculos do instituído, e observa como nos saímos na extenuante-regozijante tarefa de dar forma ao vindouro, criar a criação. Não serei eu, como mãe, que abraçarei a tarefa de amesquinhar isso. Ou de ensinar a minha filha que seu direito a essa complexidade é menor que o de qualquer outra pessoa.

Eu não ensino a minha filha que menina não fala palavrão. Abraço a missão de ajudá-la a encontrar os meios para dizer tudo o que ela desejar.