Uma mulher de meia-idade
de classe média
medianamente bonita
no meio da rua
segura uma caixa de ovos.
E tenta
dedicadamente
não derrubar
nada.
Uma mulher de meia-idade
de classe média
medianamente bonita
no meio da rua
segura uma caixa de ovos.
E tenta
dedicadamente
não derrubar
nada.
Exausta, deito com meu
livro novo, o da antropóloga que sobreviveu ao ataque do urso.
Deito na esperança de
adormecer lendo. Adormecer lendo é o refúgio que aprendi na infância. A bondade de um acordo tácito no qual eu finjo que não quero dormir e o livro finge que acredita,
me sustentando tranquila e amparada até o sono chegar.
Quando estou cansada, não
tenho forças para dormir. Quero demais esse adormecimento quase involuntário,
quase narcótico, que chega como se eu não o estivesse esperando, como se acaso
fosse.
Acaso não. Um ato de misericórdia
do universo que me concede chegar ao sono sem passar pela solidão que o
precede. Um sono sem escuro.
Não sei ensinar a
adormecer porque sou eu mesma incapaz de adormecer.
O livro me devora: sou
sua, não o contrário. Quem espera a compaixão do universo não deve se fiar em
livros bons e finos.
Eu queria ser capaz de
adormecer.
Tenho usado o horário de almoço do home
office para nadar na piscina do meu prédio. A América Latina, esse maná de
realismo fantástico onde a gente pode unir direitos trabalhistas a privilégios
de classe e seguir vivendo como se não precisasse da revolução.
Debaixo d’água, penso no livro que estou
escrevendo, sobre maternidade. E me pergunto por que alguém ainda estaria
escrevendo um livro sobre isso depois que A filha perdida já foi escrito e
filmado.
Fico ainda mais cética de mim mesma quando lembro
que desejo escrever um livro sobre maternidade com uma perspectiva positiva. Aparentemente
o mundo não precisa disso. Mas eu preciso. Desenhar para mim mesma uma porta,
um caminho, uma fagulha de prazer no meio do cotidiano massacrante.
Meu pescoço dói faz quatro meses. Do lado
esquerdo. O pé esquerdo também dói, faz mais tempo. Eu acho a coincidência intrigante,
mas os ortopedistas não dão a mínima para ela. Suponho que se eu comentasse que
as enxaquecas são sempre do lado direito, nem levantariam os olhos do raio-x.
Até porque eles são dois. Um só cuida do
pé, o outro não cuida de nada, mas registra a consulta na fatura do plano de
saúde. Tudo o que ele pode fazer por mim é aconselhar que eu trabalhe menos e
me encaminhar para o RPG, o que até me parece uma ideia honesta. A dor não é
exatamente incapacitante, mas é persistente, duradoura, me incomoda há meses. Filmes
e séries sobre cirurgiões já me haviam alertado para a possibilidade de que
ortopedistas se sintam um pouco entediados a respeito das dores moderadas das
editoras de meia idade.
Na piscina, outras mulheres e homens de
meia idade leem seus livros, tomam sol, escrevem no computador. Penso na peste
que nos permite cuidar da saúde: por causa da pandemia estamos aqui trabalhando
na piscina, tomando sol, vendo o céu e imaginando o horizonte. Penso que
piscina à tarde é coisa de universitário, como viver de pizza e miojo. Penso no
livro que estou lendo sobre uma mulher de meia idade que vive que nem
universitário, mas sem piscina à tarde. Penso nas mulheres mais espertas do que
eu que elaboram suas angústias escrevendo na terceira pessoa.
Nado para tirar o peso de sobre os meus
pés, para que a água me sustente e eu possa flutuar.
É também por que escrevo.
Era uma vez uma mulher que gostava de olhar as copas das árvores balançando,
deitada no chão. As copas das árvores não se tocam, elas balançam num movimento
coordenado como se cada uma soubesse onde a outra começa e para onde ela vai. Seus
contornos se encaixam, como os continentes em deriva, mas elas não avançam umas
sobre as outras nem sob o vento tempestuoso.
Era uma vez uma mulher hipnotizada pelo movimento das copas da árvores sob
um vento que não existe aqui, só lá em cima. A grama rasteira não sabe o vento que
enlouquece as copas das árvores e sua última folha mais alta mais alta mais
alta, que balança mais que todas e quer subir aos céus mas não se rompe porque ela
é folha mas também é árvore.
Era uma vez uma mulher deitada no chão, sobre a grama, querendo ser árvore.
Eu não sei:
ser elegante
fazer sala
cantar no tom
Não posso deixar de:
beber vinho
usar pontuação
pensar demais
Posso:
correr na chuva
morrer de raiva
escrever poemas.
e gostar deles
Um livro de memórias comovente; um manifesto feminista preenchido pela concretude de uma vida singular; um depoimento prático sobre o que significa (e o que custa) ter um teto todo seu; uma narrativa em primeira pessoa sobre a São Francisco dos anos 1980 e sua gentrificação; uma reflexão sobre tornar-se adulta e vir a ser a pessoa que se é; um livro de teoria e método, se me permitem um grau de empolgação.
Tenho vontade de indicar a todas as minhas amigas e aos amigos mais especiais. Amigas, leiam. Amigas e amigos da Geografia e da História, em particular, leiam.
Eu nunca tinha passado pela sensação de que a vida fica velha, não nós. Nós que estamos aqui estamos aqui, no presente. Hoje olhei para meu querido tempo de universidade e percebi que ele ficou velho.
Mais que a amigas e amigos queridos, tenho vontade de indicar esse livro para a jovem que eu fui, e me pergunto o que teria feito comigo ler mulheres assim quando tinha 20 anos, evitando encarar o que ainda pode fazer comigo ler mulheres assim aos 40.
***
Rebecca Solnit, Recordações da minha inexistência, Companhia das Letras.
Na
casa da minha amiga tinha sempre pão com requeijão e bolo de brigadeiro, que a
mãe dela fazia. Sempre afundava no meio, e aquele bolo melado e convexo na
forma redonda de inox ficou sendo para mim a imagem platônica do bolo de
brigadeiro, da qual todos os outros viriam a ser o real que trai o
ideal, como ocorre com os namoros e o amor, por exemplo.
Eu
cresci com esse bolo, é o que sinto, mas a verdade é que ele entrou na minha
vida quando eu já me encaminhava para a adolescência.
Da
infância tenho lembranças mais fragmentárias, e não tenho certeza se o bolo da
minha avó – recheado sempre com uma lata de leite condensado cozida e coberto
de confeito colorido – era mesmo sempre esse ou se sou eu que repito indefinidamente
um determinado aniversário estendendo a todos os primos aqueles mesmos
confeitos e o encantamento com a habilidade mágica de se cozinhar uma lata e
obter o creme denso, macio, brilhante. Episódios limitados ganham perenidade
na nossa memória de mortais.
Nunca
fui tão de doces, mas coca-cola com chocolate pode parecer o lanche de uma
adolescência inteira mesmo se você só o comeu às vezes, no intervalo das aulas
da tarde, naquela combinação de prazer e ansiedade que na juventude tem a cara
da independência. Quando eu soube que Renato Russo morreu, estava lanchando coca-cola
com chocolate. Minha amiga, outra, teve raiva, disse que não o perdoava. Perplexidade
às três da tarde.
Quando
comi torta de frango com café, sozinha, na mesa de uma lanchonete, fiquei
adulta. A gente fica adulta muitas vezes, e é sempre um acontecimento.
Na
casa dos meus pais não tinha torta. Tinha a moqueca com o molho denso amarelo pleno,
tinha o manjar com as ameixas das quais me aproximei muito lentamente, um
aprendizado, tinha churrasco cortado em tirinhas finas e pão com vinagrete que
eu como sempre sempre muito. Mas não tinha torta. Torta era comida da rua,
comida do mundo lá fora. E eu não tomava café, tomava coca-cola. Por que os
adultos tomavam café se tinha coca?
Tomar
café com torta de frango na mesa da faculdade combinava muito com o xerox de um
cara chamado Jakobson que eu precisava ler e cujo nome não sabia pronunciar.
Hoje
sentei num café e pedi um expresso com torta de frango. Me deu saudade.
A maternidade imposta
a maternidade enquadrada
a maternidade patriarcal
ela é um roubo.
Maternidade expropriada.
O horizonte: maternidade gozo.
Dentre as coisas que a quarentena me trouxe, uma dor persistente no pescoço, a vontade de pintar como se eu soubesse fazê-lo, e um punhado de fios brancos pela cabeça, que parecem tanto mais numerosos quanto mais os examino no espelho.
Recentemente notei: os fios não ficam brancos. Ocorre que ganhamos novos fios, brancos desde sempre. Deduzo isso do fato de que alguns deles são curtos, às vezes curtíssimos. Fios tão pequenos como aqueles que ganhamos em algum momento da adolescência quando odiamos nossos cabelos, ou como aqueles que nos vêm após o nascimento dos filhos e quase não notamos, ocupadas com o bebê que nos olha.
Eles são espetados, não se alinham aos demais. Como poderiam?
E eu que queria imitar a moça do filme, de chanel vermelho, agora hesito diante da possível tintura. E se com ela eu acabar perdendo todo o espetáculo?
Ando pela cidade, oito meses após o início da maior pandemia do último século, que nos legaria um mundo totalmente diferente.
Tudo parece igual.
sob o céu azul e as folhas que balançam com o vento
melancolicamente
sofro
não há nada
de inteligente
sofisticado
charmoso
lânguido
sofria-se adequadamente no século XIX
hoje
sob o céu azul e as folhas que balançam ao vento
como se sofre?