terça-feira, 22 de agosto de 2017
Puericultura situacionista?
Não é possível falar em "falta de limites" quando vivemos sob o inexorável limite da vida transmutada em sobrevivência.
sexta-feira, 2 de junho de 2017
Rotinas, roteiros, percursos
Eu não tenho provas,
mas tenho convicção de que a máxima "criança precisa de rotina" é
falaciosa. Ou, pelo menos, ela precisa ser relativizada e tratada de uma
maneira mais complexa do que habitualmente se encontra nos guias e dicas sobre educar
crianças.
Acredito que as
crianças – assim como nós, aliás, em alguma medida – precisam de pontos de referência,
precisam de relações humanas quentes, precisam de tempo e liberdade para contemplar
o mundo e a si mesmas e se espantar com a imensidão. Precisam que a vida seja
recheada de sentido, e não ter sua existência tragada por esse vazio árido que
nos ronda.
E nada me convence de que
isso se traduz em dormir e acordar no mesmo horário, nem em fazer todas as
refeições com cinco cores no prato. É que isso é mais fácil de prescrever. Não
é a rotina que garante isso, é alguma coisa bem mais difícil de operacionalizar,
são as relações verdadeiras com o mundo, com os outros seres humanos, consigo mesma.
Talvez o que rotina faça seja garantir alguma segurança diante da ausência ou
da precariedade de todo o resto.
Claro que eu
posso estar completamente errada.
sábado, 20 de maio de 2017
O poder do marketing - e da falta de horizontes
Estamos na cozinha, arrumando a louça e brincando de adivinhação:
- Mamãe, é uma palavra que começa com "la".
Respondo a primeira coisa que me vem à cabeça:
- "Lá, lá, lá, Brizola..."
Errei. Era "laranja".
segunda-feira, 30 de janeiro de 2017
De príncipes e princesas, ou: Diferentes narrativas da concepção humana - explorando a noção de neutralidade da ciência
Hoje assisti, em algum lugar da Internet, a um vídeo
mostrando o desenvolvimento de uma gestação humana por dentro do corpo da
mulher. Nada de novo sob o céu, mas eu gosto, acho divertido ver esses vídeos
sobre “maravilhas da natureza” que poderiam passar no Fantástico com narração
de Cid Moreira (acho que faz um tempo que não vejo o Fantástico).
Ele seguia o roteiro de todos os vídeos, animações, desenhos
etc. que me lembro de ter visto sobre esse processo: a aventura começa quando
o intrépido batalhão de espermatozoides (que lamentavelmente perderam parte de
sua dignidade junto com o acento agudo) lança-se rumo ao desconhecido, navegando
à velocidade da luz por mares bravios, até que apenas o mais corajoso, o mais veloz,
o mais resistente, o primeiro a atravessar incólume essa galáxia de possibilidades
terríveis que é o interior do corpo feminino, apenas ele – o escolhido – atinge
o óvulo, com sua barreira até então intransponível, mas que, diante de cavaleiro
tão cheio de predicados, de guerreiro tão vistoso tão temido e poderoso,
finalmente se abre para a consumação do milagre da vida! Dizem até que eles
foram felizes para sempre.
Ocorre que a aventura começa antes, não? Pois prepare o seu coração,
porque agora vamos, por essa selva escura e desvairada, acompanhar a incrível jornada
do óvulo (que, aliás, soube manter seu acento e sua dignidade).
A história de nosso herói começa há muito tempo: ele é a vida dentro de cada nova vida, o primeiro lampejo do rebento vindouro. Tendo sempre vivido entre os seus, no lugar em que tudo lhe era conhecido, em que tudo lhe era afável, quando a missão o chama, no momento exato em que é instado a cumpri-la, nosso herói despede-se sem hesitar de sua aldeia, e lança-se, com coragem e precisão, através do desconhecido. Com a sabedoria ancestral que lhe é inerente, segue a trilha dos que o precederam em busca do local exato, do momento preciso. Ele sabe que há apenas um lapso de tempo em que a profecia pode se cumprir. E sabe que cabe a ele, e somente a ele – o escolhido –, encontrar esse portal mágico do tempo e do espaço, para que o guerreiro não pereça em sua corrida cega. Após longos dias de viagem, encarando o risco da morte, atormentado pelo temor da vacuidade de sua existência, ainda assim ele segue impávido rumo a seu destino. Alcança o local predestinado. É ali. O local preciso. O momento exato. Ele é o escolhido. Em sua sabedoria inata, sopra nos ouvidos incautos do viajante veloz os sinais que o colocam na trilha correta. Até que finalmente pode abrir suas membranas, liberar suas abundantes enzimas. Os céus se movem: transforma-se em vida o vaticínio ancestral.
A história de nosso herói começa há muito tempo: ele é a vida dentro de cada nova vida, o primeiro lampejo do rebento vindouro. Tendo sempre vivido entre os seus, no lugar em que tudo lhe era conhecido, em que tudo lhe era afável, quando a missão o chama, no momento exato em que é instado a cumpri-la, nosso herói despede-se sem hesitar de sua aldeia, e lança-se, com coragem e precisão, através do desconhecido. Com a sabedoria ancestral que lhe é inerente, segue a trilha dos que o precederam em busca do local exato, do momento preciso. Ele sabe que há apenas um lapso de tempo em que a profecia pode se cumprir. E sabe que cabe a ele, e somente a ele – o escolhido –, encontrar esse portal mágico do tempo e do espaço, para que o guerreiro não pereça em sua corrida cega. Após longos dias de viagem, encarando o risco da morte, atormentado pelo temor da vacuidade de sua existência, ainda assim ele segue impávido rumo a seu destino. Alcança o local predestinado. É ali. O local preciso. O momento exato. Ele é o escolhido. Em sua sabedoria inata, sopra nos ouvidos incautos do viajante veloz os sinais que o colocam na trilha correta. Até que finalmente pode abrir suas membranas, liberar suas abundantes enzimas. Os céus se movem: transforma-se em vida o vaticínio ancestral.
(Quem diria que o óvulo não era só um bobo ali esperando. E os
cometinhas, vamos lá que são rapidões, mas a bem da verdade às vezes eles nem
sabem onde estão batendo a cabeça...)
terça-feira, 3 de janeiro de 2017
Abraço o que existe
Eu descobri o medo de minha mãe em mim.
E ao descobri-lo, descobri a força de minha mãe em mim.
E de toda uma teia de mulheres que seguiram em frente sabe lá deus como.
Sabemos nós como.
(Em cada uma de nós existe uma teia de mulheres que vale a pena descobrir.)
sábado, 26 de novembro de 2016
Queijo e ideias (des)feitas
Ela é freira. E cientista, microbióloga. O que, de acordo com os preconceitos que carrego confortavelmente instalados em meu coração, já é um choque.
Aí, em sendo cientista, conseguiu demonstrar que produzir queijo pelo método pré-científico, sujinho, sem controle microbiológico, resulta em um perfeito controle microbiológico, muito mais seguro do que com a utilização de barris de inox rigorosamente assépticos.
Sempre existe uma variável que não conhecemos, e pode ser que ela arranje tudo melhor do que poderíamos fazer, ou imaginar.
Assista Cooked, é lindo.
segunda-feira, 26 de setembro de 2016
Encruzilhada
Ele desceu a ladeira pensando na conta que tinha esquecido de pagar. É sempre assim. Só nos grandes épicos é que os momentos importantes são limpos, precedidos de uma pausa dramática. A vida de todos os dias é um emaranhado de enormidades e miudezas. Migalhas. E nunca sabemos muito bem discernir umas e outras. De perto as migalhas podem ganhar corpo, e a imensidão não se apercebe.
Desceu a ladeira pensando na conta que tinha esquecido de pagar. Provavelmente não tem importância. Não depois de hoje.
Seguiu pela margem do canal, tentando se concentrar no que realmente importava. As poças d'água ainda estavam por ali, mas o sol já começava a pesar nas costas. Na verdade, ficava bonito filtrado pelas árvores, se você parasse para olhar.
Aos domingos as pessoas passam por ali tranquilamente. Aos domingos, o passeio se presta a passeios.
Mas não para ele. Ele precisa chegar. Sabe que é importante.
Depois de virar a esquina, aproxima-se da casa. É essa mesmo. Finalmente, abre a porta.
****
Primeiro texto da vida escrito sem rascunho nem rasura. Sente e escreva. Sentei, escrevi.
quarta-feira, 27 de julho de 2016
Desde que o samba é bamba
Ando envolvida com um trabalho novo que tenho adorado, uma tradução para legendagem
de vídeo. É difícil, para mim, pois não tem
roteiro escrito, somente o áudio, e eu sempre fui “ruim de ouvido”, tanto para música
como para idiomas. De modo que agora toda vez que entro no carro para ir
sozinha a algum lugar, já ligo o áudio, na esperança de deixá-lo impregnar meus
ouvidos e conseguir fazer o trabalho direito. E está sendo uma experiência muito
interessante, pois a cada audição eu entendo algo que não havia entendido na
vez anterior, e fico toda feliz, feito criança que aprendeu coisa nova.
Só topei esse trabalho porque é um projeto querido, pois eu sabia
que ia ser muito desafiador. Mas está sendo uma roubada deliciosa.
***
Depois do jantar, enquanto ajeito as coisas, vou cantarolando.
“A tristeza é senhora
Desde que o samba é samba...”
A menina desenha. E ouve, percebo. Então aproveito o laptop aberto na cozinha e
coloco o sambinha no YouTube. Ela reage: “Ah, mas eu queria ouvir uma menina
cantando...” Ok, internet tem tudo.
Quando a voz feminina surge, seu rosto se ilumina.
***
Passei toda uma vida, inúmeras chuveiradas, incontáveis lavagens de louça e
sabe lá deus quantas rodinhas de samba e violão cantando, toda feliz:
“Solidão apavora
Tudo demorando em seu tamborim”
Choque: a voz feminina vem me esclarecer que nunca houve nenhum tamborim ali.
E eu que achava o tamborim tão poético...
***
Pelo menos, parece que os ouvidos andam atentos por aqui.
Pelo menos, parece que os ouvidos andam atentos por aqui.
quarta-feira, 13 de julho de 2016
Mel e canela
- Tá cor de mel e canela.
Levo um tempo para entender que, enquanto
eu olho placas, carros e semáforos, ela vê o horizonte.
- O céu, filha?
- É. Quando o Sol se põe o céu fica cor de mel
e canela. Quando ele nasce e quando se põe.
Perplexos, meus olhos marejam.
terça-feira, 21 de junho de 2016
Privação de sentidos
Na academia, há música em toda parte, o tempo todo.
Na sala de yoga, na piscina, nos corredores, no chuveiro, na privada.
Jamais podemos estar no silêncio.
***
No vestiário, duas moças conversam:
- Quando eu me olho nesse espelho aqui, até que não me acho tão gordinha. Mas lá na sala, fazendo os exercícios, parece que estou tão gorda...
- É aquela luz.
quinta-feira, 16 de junho de 2016
Comida
Dias atrás fui encontrar uma amiga em um restaurante, no sábado, dia de feijoada. Minha filha foi conosco, levando sua massinha, o brinquedo da vez. Ela brincava muito concentradamente na mesa, enquanto eu lia o cardápio, perguntando o que ela gostaria de beber. No ponto em que eu repetia a pergunta pela terceira vez, já com uma voz de quem estava se aborrecendo, minha amiga, que anda muito interessada em neurociência e desenvolvimento infantil, interveio: “Ela não pode te responder, o cérebro dela está fazendo outra coisa.”
Esses dias, lendo um comentário de uma consultora de alimentação infantil sobre não misturar BLW com papinhas, lembrei dessa cena da massinha. Deixar a criança manipular a própria comida não pode ser uma distração para que alguém aproveite e encha sua boca de comida. A ideia do BLW é permitir que a criança se alimente no seu tempo, com consciência – não que ela brinque com um pedaço de brócolis enquanto lhe dão uma comida que ela não tem nem a oportunidade de reconhecer.
Quando começamos a introdução alimentar da Teresa, eu nunca tinha ouvido falar de BLW, sigla para baby led weaning, algo como uma introdução alimentar (desmame) guiada pelo bebê. Até onde eu sabia, alimentação de bebês teria de passar por papinhas. Mas fui lendo algumas coisas, conversando aqui e ali. Esse tema me absorvia muito: acho que eu pensava em como e quando começar a introdução alimentar da minha filha desde antes de ela existir...
Eu tinha uma preocupação sobre como oferecer uma comida adequada e construir hábitos alimentares saudáveis, talvez porque isso seja um assunto onipresente hoje em dia, além da conhecida culpa de mãe. Mas também tinha outra coisa: eu ficava meio apavorada com a tal fase das papinhas. Quando imaginava como seria esse momento, achava tudo muito chato e inconveniente.
Me desagradava muito a ideia de ter de fazer comidas específicas, de acomodar minhas atividades em torno de fazer e dar papinhas, de ficar carregando potinhos mundo afora. Nunca fui uma mãe de potes e sacolas. Como muitas mulheres, me sentia solitária e enclausurada após o nascimento da minha filha, e resolvi não me prender mais que o necessário: colocava algumas fraldas na bolsa, sling a tiracolo, e ia passear, tranquila com o fato de que qualquer fome e sono se resolviam com colo e peito. Mas as tais papinhas me colocariam refém das sacolas, potinhos e micro-ondas...
Também era um momento da minha vida em que as tarefas cotidianas constituíam um desafio permanente. Eu estava equilibrando o trabalho e a finalização do mestrado, e me pesava a ideia de criar mais tarefas a serem cumpridas – produzir e armazenar refeições especiais, ter um momento somente para dar comida. Além disso – agora vem a confissão realmente embaraçosa – eu tinha uma certa preguiça daquele momento de dar comida na boca.
Se por um lado isso revela meu lado sombrio de mãe egoísta e preguiçosa, por outro eu acho que tem a ver com uma outra coisa, menos sombria. Eu gosto muito de cozinhar e de comer, e considero as refeições momentos cotidianos de prazer e celebração. Eu queria simplesmente fazer comida, sentar e comer, junto com minha filha. (Talvez não fosse preguiça, mas intuição.)
Houve duas coisas fundamentais que me iluminaram e ajudaram a entender qual seria o caminho possível por aqui. Uma foi o livro Mi niño no me come, de Carlos González. Eu poderia dizer que ele mudou tudo o que eu pensava. Mas minha sensação foi, na verdade, a de que ele me revelou tudo o que eu já sabia. Entendi que a alimentação (só a alimentação?) infantil (só a infantil?) tem a ver com ética e confiança. Nós sabemos alimentar e nos alimentar. Saúde tem a ver com muitas coisas, inclusive (talvez sobretudo) com alegria, com a vida não ser um fardo. Não se obriga uma pessoa a comer (e crianças são pessoas). Também não se obriga alguém a submeter sua cozinha a preceitos e caprichos alheios. Confiança na comida, confiança na criança, confiança na vida.
A outra foram as muitas conversas que tive em um espaço dedicado ao atendimento de crianças e suas famílias, onde fiz aulas de yoga, conversei com várias mães, e participei de rodas de conversa sobre alimentação infantil. Fiz até uma oficina sobre introdução alimentar de bebês, mas mesmo nessa oficina não me recordo de termos falado nominalmente em BLW. No entanto, lembro de uma colocação que inverteu completamente minha perspectiva sobre tudo aquilo: não se trata de introdução alimentar para a criança, mas da introdução da criança no mundo da comida. De apresentar a criança ao mundo das refeições familiares.
Nesse momento, descobri que era possível, saudável e sensato precisamente aquilo que eu tanto almejava: sentar e comer com minha filha.
De modo que parei de procurar guias alimentares e ignorei silenciosamente as orientações de preparo e balanceamento de papinhas feitas pela pediatra na consulta dos seis meses. Em vez disso, continuei preparando minhas refeições e comendo-as junto à minha filha. Ela ficava ao meu lado, sentada em cima da mesa, em um “bumbo” (uma espécie de cadeirinha de bebê que colocávamos mesmo sobre a mesa, pois em casa temos um balcão com bancos altos, e não uma mesa com cadeiras baixas e “seguras”). Eu fazia comida “normal”, colocava algumas coisas em um prato para ela, e deixava-a livre para manipular o que a interessasse, como quisesse. Sim, sim, havia muita sujeira... No meio dessa bagunça, às vezes alguma coisa acabava sendo comida. Mas isso não era objetivo, era parte.
A coisa toda causava um bocado de estranhamento. Em geral, as pessoas manifestavam a preocupação de que ela estivesse começando a comer “muito tarde”, e de que pudesse engasgar. Bem, sobre “adiar” a introdução alimentar, eu estava bastante segura, pois atualmente mesmo as orientações mais ortodoxas são de que bebês que só tomam leite materno comecem a receber alimentação complementar a partir dos seis meses – as orientações para começar antes disso não são ortodoxas, são francamente ultrapassadas. Já sobre engasgar... Não sei se alguma mãe ou pai não se preocupa com isso, mas esse é justamente o benefício de não iniciar a alimentação complementar antes da hora! Eu ficava atenta, claro, mas só coloquei comida à disposição da minha filha quando ela já se sentava e se interessava em comer. Oferecia os alimentos em pedaços grandes, não colocava comida na boca dela, não dava coisas pequenas e redondas, nem muito duras como castanhas... Ela nunca engasgou. Nosso medo pode ser uma intuição de segurança, e acho que precisamos ouvi-lo. Se há medo, é preciso recuar e avaliar. Mas o medo também pode ser uma vida sem intuição, sem confiança, alienada, e precisamos nos fortalecer – com troca, com apoio, com informação, com terapia, o que estiver ao alcance.
A preocupação de que a alimentação complementar começou “tarde” se articula com o receio de que a criança esteja “comendo pouco”, de que não esteja suficientemente nutrida. Você coloca a comida na frente dela e ela brinca, em vez de comer. Querem vê-la raspar o prato... Não vou entrar em discursos sobre o quanto a indústria do alimento infantil sabotou a nossa força e a nossa confiança (aliás, a indústria de um modo geral nos convenceu da necessidade de um tanto de tralha para criar filhos...). Mas, no meu caso em particular, eu confiava verdadeiramente na amamentação. Posso dizer que até um ano de idade, seguramente, eu imputava a nutrição da minha filha ao meu leite. As outras comidas eram para treinar, para aprender a comer, para participar do universo social que a comida representa, para conhecer cores e sabores. Para sair da mãe e entrar no mundo. Mas, se não comer, o leite dá conta. Pelo histórico de doenças da Teresa, ou eu tive muita sorte, ou não estava muito errada em pensar assim.
Talvez o mais bonito de tudo isso seja que, se inicialmente eu relutei em abraçar as mudanças que viriam com a obrigação de cozinhar para uma criança, e parecia que as papinhas virariam minha vida do avesso, a verdade é que a decisão de oferecer à minha filha a mesma comida que estivéssemos comendo mudou enormemente o jeito como comemos em casa, e meu jeito de cozinhar. Comecei a pesquisar formas de oferecer uma comida adequada e saudável, mas em vez de me encantar com os blogs de antroposofia e macrobiótica, fiquei mesmo naqueles que me ensinaram a fazer pão e manteiga em casa. E risoto na panela de pressão. E a preparar legumes de vários jeitos, para a criança que só teve dentes com um ano e até hoje não se interessa por salada de folhas. Mas come escarola refogada com macarrão. E adora brigadeiro. E anda rejeitando pizza, para desespero dos pais que não querem entrar na cozinha no domingo à noite.
É que não era a mãe fazendo comida de bebê, era eu inteira, fazendo comida boa para todos nós.
Porque não são só as mãos que moldam a massinha, é o cérebro também, é o corpo todo. Quando a gente abraça, é o corpo todo que abraça. Quando a gente pensa, é o corpo todo que pensa. Quando a gente come, é o corpo todo que come. Ou deveria ser. Ou poderia ser.
Ou, pelo menos, podemos ter isso no horizonte.
sábado, 21 de maio de 2016
...
Recentemente eu participei de uma coisa chamada “Treinamento de Inteligência Emocional”. Ganhei de umas amigas, muito queridas, que achavam que era algo muito bonito que eu nunca viria conhecer, pois jamais me lançaria por conta própria naquilo. Elas estavam duplamente certas: é bonito mesmo, e eu dificilmente me meteria em algo com esse nome.
Começa pelo “treinamento”. Treinamento me faz lembrar daquelas experiências com bichinhos levando choque e ganhando comida. Para mim, a ideia de seres humanos sendo treinados remete ao exército e às distopias relacionadas ao totalitarismo. Manipulação com base científica. Preparação do ser humano para a barbárie.
E depois a tal “inteligência emocional”... Não sou psicóloga nem neurobióloga, mas do alto da minha ressonante ignorância eu simplesmente acho que nós temos inteligência, pronto, uma só. Uma coisa complexa e multifacetada, que não dá pra sair quebrando em “inteligência lógica”, “linguística”, “espacial”, “emocional” e por aí vai. O que ocorre é que nossa existência foi intensamente fragmentada. Em uma sociedade atomizada, o mundo do trabalho foi nos quebrando em mil pedacinhos, a fim de identificar qual deles interessa e quanto vale pagar por cada um. Em certo momento da história, éramos quase todos “braços”. Agora, temos de nos esforçar um pouco mais e, se nos qualificarmos o suficiente, podemos ser também, além de “braços”, “proatividade”, “flexibilidade”, “liderança”.
Mas ser quebrado em mil pedaços não é, evidentemente, um procedimento gerador de uma existência plena ou saudável. A gente adoece, em pedaços. Em algum momento, a complexidade que nos foi tirada tem de ser entregue de volta, mesmo como ilusão, mesmo na forma de mercadoria (pois essa é a coerência de nosso momento histórico), quem sabe como utopia. Então temos uma miríade de soluções: tratamentos holísticos e espirituais, terapias tradicionais repaginadas (minha mãe foi fazer reiki e disse que é igualzinho quando ela ia na benzedeira – achei muito sagaz), psicoterapia em dezenas de versões, grupos de apoio, medicamentos para corrigir nosso cérebro (sem corrigir nossa vida)... E até treinamento de inteligência emocional. (É bom dizer – embora evidentemente ninguém precise do meu aval para coisa alguma – que acho todas essas “soluções” absolutamente válidas como busca pessoal. Apenas cabe pensar o que elas revelam sobre nosso mundo e nossas vidas.)
Pois é, fui lá... E achei muito bom. Revelador e acolhedor. Mas continuo não gostando do nome, e acho que ele não faz jus ao que se passa ali. Para mim, trata-se de um processo terapêutico. E processos terapêuticos me parece que são bem o oposto do treinamento, são o “destreinamento”. Ter a oportunidade de olhar para os nossos comportamentos condicionados e percebê-los, observar nossos sentimentos, imaginar outras possibilidades de ação e de reação, isso é o contrário do treinamento, é desenvolver a sensibilidade a respeito de nós mesmos, a responsabilidade por nós mesmos. E isso não tem a ver com um fragmento de nós chamado “inteligência emocional”, tem a ver com a totalidade do nosso ser, inserida no emaranhado da nossa existência, que inclui desde os nossos antepassados até as nossas fantasias de descendência.
Mas talvez eu não tenha entendido nada, e só estou tentando recusar a ideia de que fui treinada.
E talvez tenha sido bom.
Dormir. Dormir é um assunto na minha vida. Uma questão, um problema. Acho adormecer uma coisa muito difícil. De vez em quando eu digo que não sou de sonecas, porque dormir e acordar são duas coisas tão difíceis, mas tão difíceis, que eu prefiro fazer só uma vez por dia. Meu marido diz que eu não tenho insônia, porque, embora custe a dormir, depois que eu durmo passo doze horas na cama de boa – mas eu me apego aos especialistas que dizem que isso também chama insônia (vão patologizar tudo menos justamente a minha doença?! ora bolas...). Pois a minha insônia tem sido alvo de reflexão há muito tempo, e fui aprendendo a aceitá-la, compreendê-la, talvez decifrá-la um pouco. E dormir tem sido melhor.
Em certo momento do treinamento, nos orientam a dormir. Estamos exaustos, deitamos em colchonetes. Eu inicio um leve processo de pânico, porque sei que estou exausta e seria ótimo dormir, mas também sei que não vou dormir, porque eu não durmo. Eu não durmo. Sucumbi, depois de anos relutando, a colocar uma TV no quarto para me ajudar a dormir, porque eu não durmo.
Deitamos em colchonetes. Apagam as luzes. Cuidam da temperatura ambiente. Uma voz calma nos orienta. (Eles acham que eu vou dormir só por causa de um escurinho e uma voz tranquila...)
Até que a voz diz uma coisa que eu acho que ninguém nunca me disse antes: “Você pode dormir, porque está em segurança. Quando você acordar, tudo estará como agora. Não há por que ter medo. Você está seguro.”
Quando acordei e percebi que tinha dormido, comecei a chorar.
Eu dormi.
quarta-feira, 16 de março de 2016
Vocações
Algumas reflexões preliminares suscitadas pela minha semana de experiência nesse universo paralelo que é a academia de ginástica.
- Artistas de circo não queriam ser professores de práticas circenses.
- Nadadores não queriam ser professores de natação. Especialmente de mulheres de meia idade sem aptidões atléticas.
- Não sei se yogues queriam ser professores de yoga, mas eles estão sempre sorrindo, de qualquer modo. O que é bom.
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016
Neologismo
Entrando no túnel escuro:
- Mamãe, tá anoitecendo!
Saindo do túnel escuro:
- Mamãe, agora tá dediando!
sexta-feira, 29 de janeiro de 2016
Movimento
Nesta revisão da minha maternidade, lembranças se revelam,
memórias se constroem. E muito aprendo.
Lendo sobre a abordagem da assistência ao parto na sociedade
ocidental moderna, descubro que o início desse movimento que no Brasil comumente
se chama de “humanização” do parto remonta a uma reivindicação das mulheres
inglesas, em meados do século XX, por não serem obrigadas a se deitar durante o
trabalho de parto, pela possibilidade de atravessarem esse processo na posição
que preferissem.
Não deveria ser espantoso – sobretudo no seio da civilização
que instituiu as liberdades individuais como princípio fundamental – que um ser
humano em pleno gozo de suas faculdades físicas e mentais precise reivindicar o
direito de manter seu corpo na posição em que bem entender?
Não consigo evitar a resposta de que em nossa sociedade as mulheres
não são realmente encaradas como indivíduos em pleno gozo das faculdades
humanas. Naturalmente instáveis – com todos esses ciclos, hormônios e caprichos
–, como permitir que tomem decisões livremente? Some-se a isso uma ideologia
tecnocrática, e eis que estamos diante de uma leiga voluntariosa a qual tenta irresponsavelmente
desafiar um profissional sensato que só deseja o bem dela.
De modo geral, minha tendência é legitimar as formas
racionalizadas de entendimento do mundo. A busca pela razão foi sempre o meu
caminho. Mas tenho aprendido a me aproximar das possibilidades do intuitivo e
do visceral. E isso certamente tem uma raiz na(s) minha(s) gravidez(es). Porque
a gravidez acontece também na alma, mas ela é incontornável no corpo...
Após o aborto espontâneo para o qual evoluiu minha primeira
gestação, a obstetra que me acompanhava prescreveu um remédio a fim de ajudar a
“limpar o útero” e evitar uma possível curetagem. Eu não fazia a menor ideia do
que se tratava, mas acatei a recomendação. (Assim procedem os médicos conosco,
e assim procedemos nós com os médicos...) Ela não me explicou nada sobre aquele
comprimido ou a respeito do que se passaria comigo, apenas indicou que o tomar
era uma conduta normal em caso de aborto espontâneo. Tomei o remédio à noite,
antes de me deitar para dormir. E comecei então a sentir cólicas que foram
aumentando gradualmente, tornaram-se muito intensas, vindo em ondas. Eu não
sabia se podia tomar algum analgésico, era de noite, por isso não telefonei
para ela. Apenas fiquei ali, ao longo de não sei quanto tempo, lidando com
aquilo.
A dor não me impedia somente de dormir, mas também de ficar
quieta. Era muito desconfortável deitar de barriga para cima – apesar de
parecido com cólicas menstruais, não era igual, e não ajudava deitar com uma
bolsa quente na barriga, como costumo fazer com as cólicas menstruais. Era impossível
estirar o corpo, fosse deitada ou de pé. Eu precisava me contorcer, e
vocalizar. Ficar em posição fetal ajudava muito, em alguns momentos. Em outros,
era confortável ficar sentada, meio dobrada. Passei muito tempo sentada abraçando
meus joelhos. Mas, essencialmente, eu precisava me mexer. Em alguns momentos, o
abraço do meu marido era uma grande fonte de conforto. Em outros eu não queria
que absolutamente nada me tocasse.
E isso foi apenas um comprimido – eu não estava em trabalho
de parto.
Não tomei mais o remédio. Mas aquele comprimido que, para o
propósito em vista, foi aparentemente inútil (pois não tive mais sangramentos e
meu ultrassom seguinte foi ótimo) na verdade talvez tenha plantado em mim uma
semente muito mais importante do que eu pudesse imaginar. Aquelas poucas horas
me fizeram encarar de uma maneira nova as discussões sobre atendimento
obstétrico das quais eu apenas começava a me aproximar.
Sempre fui do tipo que não para quieta. Sempre odiei que me
segurassem, que prendessem meus movimentos. Como poderia ter meu filho presa a
uma cama?
terça-feira, 26 de janeiro de 2016
Gentileza
O enfermeiro entra na sala, para, me olha por alguns instantes com firmeza e bondade, e lança, um pouco teatral:
- Eu vos digo: boa noite!
Mesmo com enxaqueca, como não sorrir?
quinta-feira, 17 de dezembro de 2015
Gravidez
Um dia, grávida, fui à casa de um amigo discutir uma
proposta de trabalho com sua irmã. Era um colega de faculdade, eu não conhecia
sua família. Não lembro bem se minha barriga já estava aparente, acho que começava
a ficar mais pronunciada. Contei então da gravidez. Naquele momento, a notícia estava
se espalhando entre os conhecidos.
(Desta vez, espalhou-se lentamente, ao contrário da
primeira. Eu nunca seria o tipo de pessoa que, de maneira deliberada e
planejada, aguarda os primeiros três meses para contar, já que pode “não dar
certo” e é melhor ser discreto no princípio. Mas o fato é que, depois da
experiência do aborto, recebemos a notícia de uma maneira diferente. Tudo
parecia mais incerto e mais íntimo, não havia a vontade de espalhar a notícia aos
quatro ventos. Não sei se é um sentimento mais maduro ou mais amargo, mas assim
foi...)
Todos me parabenizaram. A mãe do meu amigo, que eu não
conhecia, que eu jamais havia visto, ficou exultante e começou a contar o
quanto havia gostado de suas gestações. Ainda me lembro vivamente dela falando
como gostava de sentir “aquela barriga enorme, aquelas crianças crescendo
dentro de mim”. Eu ri, espantada. Espantada!
Achei engraçado, excêntrico. Nunca me havia
passado pela cabeça encarar a gravidez – a gravidez em si, o processo
fisiológico, a sensação física – como algo positivo. Basicamente, a gravidez
era um certo incômodo que é necessário atravessar para ter um filho.
Acho que levei muito tempo para processar aquele momento. Aquela
mulher que eu não conhecia e de cujo nome já não me lembro provavelmente nem
imagina com que gratidão penso nela hoje.
Eu ainda não sabia, mas naquela época uma chave começava a
virar dentro de mim. Eu começava a me aproximar do meu corpo de mulher. A
aprender a não negá-lo. Um aprendizado árduo, pois requer a desconstrução de
toda uma história de negação do corpo, sobretudo do corpo feminino.
E não vai aqui nenhuma apologia à “gravidez de comercial de
margarina”. Esta também é uma negação, na medida em que idealiza o processo. Há
incômodos, objetivos, fisiológicos. Mas quando se trata de seres humanos, nada
é puramente objetivo e fisiológico.
A gravidez (e também os momentos da concepção e do
puerpério) é um momento absolutamente incrível para nos apropriarmos de nosso
corpo, conhecê-lo, reconhecê-lo e amá-lo.
Realmente, que coisa incrível aquela barriga enorme, aquela criança
crescendo dentro de mim.
Obrigada.
segunda-feira, 14 de dezembro de 2015
Pedaços
"Todos os dias quando acordo não tenho mais o tempo que passou.
Mas tenho muito tempo."
Essa foi uma das minhas músicas favoritas da adolescência, de chorar sempre que eu ouvia.
Ontem estava num hotel e peguei uma revista, dessas bobas de cortesia de sala de espera, e essas frases estavam lá. E pareceu estranhamente que era a primeira vez que eu olhava para elas. Aquilo que eu cantarolei (ou gritei, ao melhor estilo 16 anos) tantas vezes na vida se apresentou com o brilho da novidade diante dos meu olhos.
Tão interessante esse momento da vida em que a gente consegue ter pontos de referência suficientes do nosso passado para alinhavar uma história. Tão gostoso juntar os nosso retalhos nessa colcha inusitada e óbvia, porque tem a nossa cara. Tão reconfortante olhar para os nossos pedaços com carinho, até aqueles que a gente já pode jogar fora. E mais ainda aqueles que a gente pode recolher de volta dessa lixeira tão esperta que não apaga nada, só reserva.
Não gostamos de envelhecer. Mas envelhecer é belo.
("O mundo começa agora. Apenas começamos.")
quarta-feira, 18 de novembro de 2015
Chuva
Esta tarde fui andar de bicicleta no parque.
Choveu.
Fazia uns vinte e cinco anos que eu não andava de bicicleta
na chuva.
Não me lembrava de que fosse tão bom.
Chorei.
E voltei para casa sorrindo.
domingo, 27 de setembro de 2015
Luto
A gente custa a processar
os eventos, sobretudo os que importam. Ou, como querem as gramáticas, custa-nos
processá-los. O tempo e a luta. Não é só que nos custa, a gente também custa.
Custou. Custei. Foram
muitos meses digerindo a perda e acalentando a esperança.
Onde podemos chorar?
Quando? Tenho a impressão de que é tão exíguo o espaço do lamento – nessa
sociedade em que somente o sucesso tem lugar, ou a vida é tão dura que é
preciso endurecer de volta –, que ele precisa forçar a porta, aproveitar as
brechas, brotar valente como as flores que crescem no asfalto.
Na primeira festa infantil
após o aborto, precisei correr para o banheiro sem cumprimentar ninguém. Bastou
entrever as crianças brincando no pátio para que aquele sentimento subisse do
estômago e explodisse em choro.
A viagem de campo do
mestrado, há muito planejada, esperávamos fazê-la com a gravidez no meio, ou
até com o bebê. Nenhuma das duas opções teria sido muito conveniente – talvez
tenham sido planos um tanto mirabolantes. Mas levar conosco a sua ausência pode
ter sido ainda mais difícil. Na ilha linda cheia de praias “boas para ir com
crianças”, as famílias alheias doíam na nossa.
A cada ciclo menstrual,
eu chorava com raiva daquele fluido sanguinolento que era o fracasso. E que um
dia acabei aprendendo a reverenciar.
Eu estava à espreita da
nova gravidez que viria calar aquela perda. Queria surpreendê-la na esquina,
lançar a armadilha perfeita. Impossível deixar a intimidade simplesmente fluir:
é preciso seguir um calendário. Impossível apenas fruir essa intimidade: é preciso
cumprir uma tarefa.
Talvez o universo seja
feito de acaso e sabedoria. Não a sabedoria transcendente. A sabedoria da
célula. Uma memória de saúde e de vida que se agarra aos nossos neurônios e,
valente como aquela flor no asfalto, nos obriga a aguardar até que estejamos
prontos.
Eu vivia metade do mês
imbuída da missão de ficar grávida – e do medo de fracassar –, e a outra metade
como se estivesse grávida. Entre o fracasso e o não eu.
Foi preciso abandonar a
vida que eu queria ter e retomar a vida que eu tinha, para poder seguir. Foi
preciso voltar a beber e fazer sexo por diversão. Foi preciso me reapropriar de
mim mesma, para poder gerar.
A nova gravidez só se
apresentou quando fui capaz de terminar de chorar a anterior. E quando consegui
finalmente voltar a gostar da mulher que eu era.
domingo, 6 de setembro de 2015
Andaimes
Frequentemente,
passo as noites correndo para fugir de alguém ou procurando alguma coisa. É sempre
muito estressante, e às vezes acabo subindo em escadas ou estruturas altas que me
apavoram, e não sou capaz de descer. Tenho aprendido a acordar antes que a jornada
me canse ou assuste demais, mas nem sempre consigo. (Talvez por isso eu deteste
aqueles filmes com muitas peripécias, sucessões intermináveis de eventos que não
caminham para o desfecho, complicando cada vez mais a situação. Eles me deixam
exausta. Se houver narrador, me irritam – ou entediam – ainda mais.)
No entanto,
também circulo por um mundo conhecido, espaços recorrentes onde a vida se
desenvolve. Eles constituem um universo que habito. Eu o conheço, reconheço
lugares e coisas, vivo nele. As casas de meus avós, como eram na minha infância;
a casa de uma tia onde não vivi tanto assim, mas que por algum motivo me
fascina; casas onde morei. Mas também lugares que, apesar de sua existência exclusivamente
onírica, constituem um mundo muito concreto no qual diferentes histórias se desenrolam,
às vezes ao longo de anos.
Atualmente,
tenho um apartamento. Pequeno, como o meu apartamento. Ele integra enredos nos quais
estou sempre procurando ou tentando implementar formas de acomodar melhor toda
a vida ali dentro. Diminuto, está todo preenchido e organizado, de uma maneira
que, apesar de às vezes non sense,
faz sentido.
Há noites
em que ele transmuta-se em um imóvel enorme, uma dádiva que não sei bem como se
realizou, uma casa com inumeráveis cômodos onde se poderiam fazer incontáveis coisas.
Mas ela não é minha, de algum modo. Os cômodos são embaralhados, labirínticos;
seus formatos são inusuais e há portas e corredores estranhamente posicionados.
Apesar da grande disponibilidade de espaço, nunca consigo organizá-lo de modo satisfatório.
Limito-me a alguns poucos cômodos, às vezes apenas um quarto, como uma
habitante de hotel. Não gosto dali, não vale a pena.
Volto
a meu apartamento pequeno. Descobri que ele tem uma porta, nos fundos, a qual dá
para um salão onde caberia outro apartamento inteiro. Eu não sabia da existência
dessa área, ela não me pertence, não sei por que está ali. É como aqueles apartamentos térreos que abrem para
uma área que é do condomínio, mas não se comunica com o restante do terreno,
formando na prática um quintalzinho, o qual do ponto de vista jurídico não poderia
ser apropriado privadamente pela unidade, mas que também na prática não será convertido
em área comum. Um limbo.
O espaço
principal do salão é quadrado, mas em sua porção direita, segundo a perspectiva
de quem entra, há um dente na planta que amplia um pouco mais a área, abrigando
duas saletas contíguas. A porta do salão posiciona-se em seu canto esquerdo, e à
direita há uma parede toda de vidro, a maior delas, que se estende por toda uma
lateral do quadrado até o fim das saletas; algumas vezes ele é aberto nas
laterais, como certos terraços de sobrado.
Durante
um tempo, houve ali apenas objetos abandonados antes de mim. Restos de uma reforma
que alguém fez. Não sendo francamente meu, assim ficou, demorei a tomar alguma
atitude quanto a esse espaço.
Houve
depois uma época em que ele começou a servir de depósito para umas poucas tralhas
minhas, embora não me lembre de como as fui colocando lá. Umas das saletas era
a sala de costura da minha mãe. Mas fazia muito calor ali.
Um dia
me dei conta de que a outra saleta estava repleta de vasos velhos com plantas
ressequidas. Comprei outros vasos, com flores e pés de mexerica. Às vezes, Teresa
me ajudava na escolha das flores.
Minha
mãe não quis mais a sala de costura. Não sei bem por quê. Parece que houve
algum conflito, mas no fim ela também pode ter achado que ali era quente
demais. Lembro-me vagamente de tentar manter o lugar como sala de costura para
mim, mas não deu certo.
Esses
usos foram interessantes, agregaram possibilidades, mas não desafogavam meu
apartamento. Até que decidi transferir para as saletas o meu escritório. Coloquei
uma mesa comprida, de frente para a parede de vidro; fiz qualquer coisa na estrutura
que envolveu a aplicação de rebites em uma esquadria de alumínio; instalei uma
estante de madeira escura repleta de livros, uma poltrona de couro, um papel de
parede urbano e contemporâneo, e um fio de lâmpadas coloridas dependuradas aqui e
ali. Uma combinação um tanto bizarra de consultório de um psicanalista sóbrio, escritório
de um freelancer descolado e quarto
de uma adolescente. Não consegui adjetivar a adolescente.
Tenho
trabalhado ali.
Quanto
ao salão principal, hoje ele está limpo e abriga apenas (no lado oposto à porta
de vidro, no canto esquerdo de quem olha da saleta e em frente à porta de
entrada do cômodo) uma grande banheira de mármore esverdeado. Ela é muito rasa
e muito bonita. Minha filha descobriu que adora banheiras, e queria ter uma em
casa. Eu sempre quis.
quinta-feira, 3 de setembro de 2015
Se dê o respeito
Uma
mulher precisa se dar o respeito. Então, menina, se dê o respeito.
Hoje,
quando for sair, vista uma roupa apropriada. Apropriada a seu humor, apropriada
a seu desejo. Nada será mais apropriado que isso. E você certamente estará deslumbrante.
Não
dê confiança a qualquer um. Dê confiança – e o que mais você quiser dar –
apenas a quem você quiser.
Sente
direito. Por exemplo, vá a um parque e sente no chão. Tire o sapato, passe o pé
na grama. Às vezes é até bom deitar, alongar as costas, esticar as pernas,
abrir o corpo. Se puder, sente de frente para o mar, ou em frente a uma revista.
Vá sozinha a um café, ou a um bar, e sente-se à vontade. Faça-se confortável e
aproveite sua companhia muito bem sentada.
Você precisa se cuidar. Faça as unhas, pinte o cabelo. Ele já é bonito, claro, mas com
tantas cores e texturas disponíveis, você pode se divertir muito. Ou não faça
nada disso. Apenas tome um banho e sinta o carinho da água capaz de refrescar
igualmente todas as peles, tenham ou não pelos e rugas. Divirta-se com seu corpo.
Não estrague
suas festas de família se aborrecendo com a tia que pergunta se você não vai
enfim arranjar um namorado ou se casar. Ela só quer o seu bem. Explique que
finalmente você está numa relação séria, e que a moça vai acompanhá-la ao noivado
do seu primo, no próximo mês.
Uma
mulher precisa mesmo se dar o respeito. Pois ele não nos é oferecido a priori, nem dado de graça. E não há
maior respeito próprio do que viver exatamente do jeito que você quer.
segunda-feira, 31 de agosto de 2015
Delícias da manteiga
Ontem, pela primeira vez, fiz brioche. E descobri que pela primeira
vez comi brioche, pois nada que eu já tenha comido antes com esse nome era
remotamente parecido com o que fiz. Nem sei se é mérito meu – suspeito que qualquer
coisa feita com aquela quantidade de manteiga seria divina.
Fiquei pensando na frase da Maria Antonieta, espantada que houvesse
brioches no século XVIII, antes do advento da batedeira elétrica. Os padeiros
da corte deviam ter músculos de estivadores.
sexta-feira, 26 de junho de 2015
Nascer
Quando nasce um bebê, nasce uma mãe.
Ser nascente que é, é preciso cuidá-la, para vicejar.
É precioso cuidá-la.
Acolher, recolher, colher.
quinta-feira, 25 de junho de 2015
Rotas rotas
Sempre às voltas com a ideia de viabilizar tarefas demais em
tempo de menos, reservo diariamente precisos 30 minutos para buscar minha filha
na escola. Normalmente gasto de 20 a 25 deles no percurso, embora às vezes
chegue raspando nos 29 e, em dias muito fora da curva, estoure o limite. Aí, pago multa de atraso...
Vou de carro. Como a escola é longe e paciência não é a
minha virtude, aprendi a sacar o padrão do trajeto, saber onde está
congestionado, prever e pressentir problemas, e variar a rota.
Mas o que tira do sério o tipo de pessoa sem lugar no céu que
vos fala não são os congestionamentos previstos e previsíveis. São os eventos inusitados
ou fora do padrão que atentam contra a eficiência do trânsito. Tipo o rapaz que
resolve deixar o carro atravessado na rua durante 30 segundos para abrir o
portão e – veja que audácia – me segura por 30 segundos parada na rua dele. O
caminhão do lixo na rua estreita, me obrigando a ir bem devagariiiinho. Aquela
senhora que dirige uma vez por mês, procurando a casa de portão amarelo, justamente
na minha frente. Moleque jogando bola nos arredores e me obrigando a ir devagar
e tensa pra não atropelar nem bola nem menino. Briga de cachorro daquelas que
parece que tem saci no meio.
Hoje foi um dia particularmente cheio desses eventos no
caminho. O mais inusitado deles foi um velhinho de andador no meio da rua. Já
era a segunda mudança de rota que eu fazia para evitar trechos lentos, e aí caí
no velhinho. Ruazinha estreita de bairro, carros estacionados dos dois lados, e
o velhinho, de andador, bem no meio da rua.
****
Dependendo do caminho, tem bastante ciclovia. Embora não
haja muitos ciclistas nelas, há alguns. Em certos trechos são ciclistas com
roupa de fitness e capacete. Em outros, ciclistas que aparentam ter optado pela
bicicleta como transporte barato, de calça jeans manchada de tinta, mochila,
pacotes. Mas a ciclovia é povoada também por pedestres, gente passeando com
animal, puxando carrinho de material reciclável, andando de skate. Enquanto há
quem diga que a ciclovia ocupa um espaço inútil porque não há ciclistas, essas presenças
revelam que não é só para os ciclistas que falta espaço nas ruas.
****
A escola não se cansa de mandar e-mails pedindo aos pais que
dirijam devagar quando vão pegar seus filhos, e não façam manobras em frente à escola.
Crianças não evitam carros, carros é que têm de evitar crianças. No clima de aproveitar
muito eficientemente o meu tempo, sempre com economia e máxima produtividade, tive
de aprender a dirigir com calma na rua da escola. Só na rua da escola?
****
O velhinho, de andador, no meio da rua. Comecei aquela
inspiração profunda que a gente realiza para logo em seguida bufar de raiva
(veja bem, já era minha segunda mudança de trajeto em busca de uma rota mais
fluida). Mas então comecei a rir. Um velhinho de andador no meio da rua!! Não
sei bem se ri do inusitado de haver um velhinho de andador no meio da rua ou se
ri de mim mesma, se ri de nervoso, se ri do meu próprio esboço de raiva. Porque
você precisa ser uma pessoa muito rabugenta pra ter raiva de um velhinho de
andador, sozinho, na rua. E no mesmo movimento em que ri da minha rabugice
absurda, vi que meu riso era deslocado, me preocupei com o velhinho. Esperei longamente ele terminar o trajeto
que me impedia a passagem, passei, perguntei se precisava de ajuda. Ele negou,
parecia lúcido, fui embora meio desconcertada. O velhinho estava no lugar errado?
Qual seria o lugar do velhinho?
****
Cheguei raspando nos 29. Não paguei multa.
quarta-feira, 17 de junho de 2015
quarta-feira, 20 de maio de 2015
Orléans
Há um ângulo preciso em que toda a catedral se alinha, em sua bela simetria. Ela nos agarra pelo olhar e posiciona nossos corpos com exatidão. Ela nos alinha, nos coloca na linha. Deslumbramento e dominação.
Nada de omelete às cinco da tarde. Un café, alors...
Ouço vozes.
terça-feira, 5 de maio de 2015
Curvas na estrada
Hoje me dou conta de que o início da minha vida como mãe
coincidiu com o momento em que terminava a minha vida na faculdade, e entendo que
isso foi muita coisa ao mesmo tempo.
Passei 17 anos – praticamente toda a minha vida adulta –
dentro da universidade. Nunca morei tanto tempo em uma mesma casa, nem de longe.
Pensando bem, até hoje, ela é a maior permanência que tive na vida, com exceção
da minha família e alguns muito raros amigos.
É de entender por que terminar o mestrado foi tão difícil. Sem
saber, eu sabia que entregá-lo seria colocar o ponto final nessa relação.
E ela me deu muitas coisas. De certa forma, ela me deu
uma identidade. Eu achava que passaria a vida toda ali, que seria pesquisadora,
professora. Não serei, não quis mais.
Fui abrindo mão de um caminho que tinha roteiro, de uma
identidade. E ainda estou à procura do meu outro caminho, minha outra cara, minha
outra casa.
domingo, 5 de abril de 2015
Bed time
Estou terminando de ler Guerra e Paz. Apesar da celebridade da obra, confesso que não
sabia bem do que tratava, comecei a ler assim no escuro, e fiquei surpresa em
encontrar, ao lado de páginas de estratégia militar, descrições da vida familiar
mais íntima. Acabo de ler uma cena em que as crianças dizem boa noite aos
adultos na sala e se retiram para dormir. Lembro daquela cena fofa de A Noviça Rebelde
em que os rebentos da família Von Trapp dizem boa noite tão charmosamente e se recolhem
um a um, deixando a festa pela escadaria.
Todos foram deitar há quase duas horas, e eu ainda não consegui dormir.
Pegar no sono é uma questão que me acompanha ao longo da vida. Ou melhor, não
pegar. Hoje brigo menos com a minha insônia: tento entendê-la como um aspecto
da minha pessoa, que se reveste de diferentes significados ao longo do tempo. Atualmente,
ela é às vezes a oportunidade de ficar só, de voltar-me a mim. Aquele momento
em que, tendo a filha ido dormir, posso me focar com mais tranquilidade em
certas coisas, relaxar, saber que posso fazer algo sem ser interrompida.
Sempre ouvi que é importante as crianças terem uma rotina
sólida e própria, e que elas precisam ir para a cama mais cedo, pois isso é
essencial para o seu desenvolvimento saudável e também para que os pais tenham esse
momento de sossego no encerramento do dia. (E para que possam ser um “um casal”.
Essa é uma questão que bem merecia um texto. A “busca pelo casal perdido” me parece
uma luta perdida: há que se inventar o novo casal...). Bem, em nossa casa, nada
disso acontece. Nosso cotidiano e disposições pessoais não convergem para isso.
E não acreditamos nessa premissa absoluta que liga o desenvolvimento saudável
do ser humano a essa concepção de rotina da criança.
Penso que é sempre bom ver com alguma desconfiança (isto é,
com sentido histórico e social), as recomendações de especialistas e
autoridades sobre o que é saudável. A recomendação de nunca comer manga com
leite, por exemplo, mais do que zelar pela saúde de quem quer que fosse,
cuidava de garantir que os escravos consumissem as abundantes mangas dos
engenhos e evitassem o leite, alimento então caro e raro, reservado aos
senhores. Podemos nos perguntar: é realmente o desenvolvimento saudável das
crianças que requer que elas tenham uma rotina rígida e própria (própria no
sentido de que é apartada da do resto das pessoas, veja bem, e não no sentido
de que emana da criança), ou somos nós, pais, que precisamos que elas durmam
mais cedo, para podermos encerrar nosso dia mais sossegados? (E com esse
questionamento não tenho a menor intenção de desmerecer as necessidades dos
pais, mas há que encarar as coisas como são, e agir de acordo.)
De minha parte, não me parece uma relação adequada colocar
minha filha sozinha em um quarto escuro para dormir no horário estipulado por
mim, a fim de que eu possa “ter a minha vida”, a pretexto de que isso é
necessário para ela ter um desenvolvimento saudável. Então fazemos como dá, e
isso às vezes significa dormir todo mundo na mesma hora, porque quando ela
dormiu eu já não tenho mais ânimo para nada; em outras, dar uma esticada até
mais tarde, porque a criança dormiu mais tarde do que me seria conveniente e eu
quero ter o meu “depois”. O que pode significar insônia, textos escritos na
madrugada...
E fico pensando como eu gostaria de conhecer mais a história
da vida privada infantil. De que modo se lida com essa questão nas diferentes
sociedades do mundo hoje, e nos diferentes tempos históricos? E então voltamos
a Guerra e Paz e A Noviça Rebelde. Nessas representações da vida aristocrática,
as crianças se retiram lindas e fofas na sua “bed time”, deixando assim os
adultos à vontade para as atividades de adultos. Mas – isto é crucial! – elas
vão com seus preceptores e governantas. Os quais, por sua vez, devem
provavelmente dormir tarde, como eu, fruindo somente depois de acomodar as
crianças o seu momento de sossego. Essa mãe aristocrata pode entregar-se a sua
vida de adulta não porque as crianças foram dormir, mas porque elas estão sob o
cuidado alheio. A mãe sem preceptores, governantas e babás, para ter o tal
sossego depois das crianças, pode desdobrar-se a fim de fornecer ela mesma o
cuidado ao filho e fruir seu momento individual em seguida, se tiver energia
para isso. Ou pode colocar seu filho no quarto, fechar a porta e deixar que ele
arranje por conta própria os meios para tranquilizar-se diante da solidão e
entregar-se ao sono. Mas para isso precisa acreditar que colocar seu filho
sozinho no quarto escuro é bom para ele, e não apenas para ela. Fazendo a fama
e a fortuna de todo tipo de especialista treinador de bebês.
Cada família pode encontrar o caminho, a estratégia, o
instrumento que melhor lhe cabe. Acho que eles são muitos e variados. Tenho
aprendido duramente que os melhores resultados vêm da mais profunda
sinceridade, do reconhecimento e respeito daquilo que pensamos e, sobretudo,
sentimos. Recomendações enrijecidas e generalizadas servem mais para fragilizar
nossa própria capacidade de reconhecer nossas necessidades e produzir nossas
soluções, do que para nos fornecer de fato soluções satisfatórias.
Na nossa fantasia da criança bem educada – reforçada por tantos filmes e especialistas –, recorta-se o modo de vida de uma elite que pode compartilhar ou
delegar o cuidado da criança, e define-se isso como normalidade. E nós, vivendo em
circunstâncias bem diferentes, nos exaurimos correndo atrás de uma pretensa
normalidade que não tem nada de normal. Aquelas crianças impecáveis subindo a
escada sozinhas para dormir não estão sozinhas. A babá as observa e as segue. E
nós, que temos de lidar muitas vezes sozinhos não só com as crianças mas também com as escadas, ficamos aqui embaixo nos perguntando o que fizemos de errado, já que nossos filhos não são tão
impecáveis...
quinta-feira, 2 de abril de 2015
Torta de liquidificador
Um jantar contra o desperdício de comida, aproveitando as
sobras da geladeira (na minha época, seria economia doméstica, mas hoje acho que
colocariam como educação ambiental).
Coloco uma tábua para mim e outra para ela, pois picar
ingredientes é, atualmente, a brincadeira mais esperada de todas as noites (desenvolvimento
da coordenação motora fina).
Começamos com a sobra dos legumes assados do jantar de ontem.
Com a faquinha redonda e quase sem fio, ela vai picando cada um em pedaços
ainda menores e, no afã de picar infinitamente, preciso lembrá-la de que não
podem ficar pequenos demais – senão queima, não é, mamãe? Mostro um exemplo: devem
ficar deste tamanho (reconhecimento de formas e proporções).
Juntamos um pedaço de queijo branco quase perdido e uma
bandeja de salame fatiado que ia pelo mesmo destino (aprendendo diversidade e tolerância,
nada de “tribos”, afinal aqui em casa a gente gosta de legumes mas não é nada
macrô). Enquanto pica, vai comendo pedacinhos de brócolis e couve-flor (nem é educação
alimentar, é prática sensorial hedonista: ninguém ainda contou pra ela que a
gente come legumes porque são saudáveis, e a menina segue achando que são apenas
gostosos).
Deixo-a preparando o recheio e vou começar a massa (trabalho
em equipe). Ela está muito atenta a sua tarefa (desenvolvendo a capacidade de concentração
– esses especialistas que dizem que uma criança só consegue se concentrar numa
tarefa por três minutos deviam puxar uma cadeira e observá-la desfazer uma
cabeça de alho, esse brinquedo de montar que os adultos usam pra temperar
comida). Vou colocando tudo no liquidificador, e ela se mantém atenta a sua
tarefa. Mas quando vou quebrar os ovos, titubeia: quebrar ovos é tão legal que
talvez valha a pena parar de picar (aprendendo a enfrentar dilemas e tomar decisões).
Observo que o salame está difícil, e concluo que foi ambição
demais praquela faca cega – o salame a mamãe vai ajudar a terminar, está bem?
(aprendendo a lidar com limites e frustrações)
Vamos colocando toda a parte picada em uma travessa. Um pouquinho
de sal e pimenta-do-reino. Eu coloco, mamãe! (opa, desenvolvendo a
individuação, ai meus sais). Um pouquinho de cheiro verde (absorvendo as práticas das gerações
anteriores – gastronomia às vezes é legal, mas a comida também é o bastão da avó).
Misturamos tudo bem misturado, sem deixar cair fora da tigela (desenvolvimento da
lateralidade, dentro e fora, na frente, ao lado).
Hora de colocar tudo na travessa. Primeiro um pouco de
massa, depois o recheio, distribuído em colheradas, e depois o resto da massa (noções
de sucessão, todo e parte). No forno você não pode mexer, ele queima (olha o tal
do limite aí, gente!, e até umas noções de termodinâmica, só pra incrementar a brincadeira, vai...).
Agora precisamos esperar a torta assar. Demora? Demora!
(aprendendo a esperar, claro!)
Enquanto esperamos, não custa misturar umas alfaces e picar aqueles
aspargos pra uma salada. Não amassa o aspargo, que meleca! (experimentado diferentes
texturas). Mas eu só vou comer torta, tá bom, mamãe?, não quero salada...
No final, comeu torta e salada, porque para incentivar uma criança
a comer salada, nada melhor do que uma mãe comendo salada com prazer e alardeando
que não vai sobrar nem um pedacinho...
****
Aí colocam as crianças em um quarto forrado de EVA, cheio de
plástico colorido e com barulhos repetitivos, e chamam isso de “ambiente seguro”, “atividade lúdica”
e “brinquedo educativo”. Faz-me rir, como dizia meu pai.
sexta-feira, 20 de março de 2015
buracos
desilusão
é o melhor que pode nos acontecer
perdem-se as ilusões
fica um vazio
a ser preenchido
com tudo o que pode ser
com tudo o que pode ser
"Sei que tenho de gerar uma estrutura cheia de buracos
para que sempre seja possível chegar à página,
habitá-la."
Valeria Luiselli
terça-feira, 17 de março de 2015
Limites
Em
meio à crônica falta de tempo que caracteriza o novelo dos meus dias, há muitas
coisas que eu não faço. Mas há uma prática que tento manter de maneira quase
intransigente. Eu faço as unhas. Há um fio encantado que une o estado das
minhas unhas ao nível de tranquilidade que sinto diante da vida.
Hoje,
enquanto observava o trabalho eficiente da manicure (e daquelas mulheres
interessantes que saem na revista Claudia) e matutava o que fazer para o
jantar, senti uma grande lassidão e má vontade. Enfado.
Aproveitei
a padaria ao lado para resolver o jantar com sanduíches. Em vez de fazer um
jantar apropriado.
Saindo
da padaria, fui dominada por uma crise de choro suave e doída. Chorei de culpa,
raiva e compaixão por mim mesma. É interminável o meu adeus à mulher sem falhas
que eu jamais fui.
Minha
filha, informada de qual seria o jantar, abriu um largo sorriso.
segunda-feira, 2 de março de 2015
via sinuosa
o malabarista com os malabares
malabariza no farol
pra cima
pra baixo
pro lado
na mão
na cabeça
na ponta do nariz
na ponta do nariz
tanto mexe
que me remexe
que me remexe
e eis que meu cérebro malabarizado
leva o carro pro lado errado
sábado, 28 de fevereiro de 2015
Perder
Da primeira vez que
fiquei grávida, foi tudo direitinho, tudo dentro dos planos.
Eu tinha um
relacionamento de muitos anos, um companheiro de amor e de vida. Nós sempre
acalentáramos o plano dos filhos, mas era para depois. Um ano antes de
engravidar, no meu trigésimo aniversário (sim, sim, minha vida é cheia de
clichês...), passei por um momento estranho e arrebatador, em que a perspectiva
de uma gravidez subitamente deixou de ser um receio e ganhou naturalidade. A
ideia foi acolhida, o desejo amadureceu.
Houve preparativos
práticos, também. Fui ao médico, fiz exames, tomei ácido fólico por três meses.
Encaixei o cronograma do mestrado com a gravidez e a licença-maternidade. O
marido pensou num modo de tirar férias após o nascimento do bebê.
Engravidei na primeira
tentativa. Ficamos espantados, orgulhosos, eufóricos. Saímos para comemorar, e
na mesma noite começamos a espalhar a notícia.
Num piscar de olhos,
somos especialistas em beta HCG, ultrassonografias, placentas e sacos
gestacionais. Sei tudo sobre os sintomas do primeiro trimestre, e felizmente
quase não os sinto.
Por volta da 10ª semana
de gestação, o exame de ultrassom vem decretar a ausência. A ausência do que
era o mais presente em nós. Não há nada lá. O embrião não se desenvolveu.
Gravidez anembrionária, aprendo. Ovo cego. Detesto esse termo.
O fluxo de instantes da
vida não prevê espaço para o momento inesperado. Nunca estamos prontos. O
incêndio nos surpreende de pijama, comendo sopa de pacotinho. Era no meio do
dia. Almoçamos. Meu marido foi trabalhar, eu fui para casa. Não trabalhei. Fiquei
pesquisando sobre aborto espontâneo na internet.
Na mesma tarde, uma
amiga vem me ver, e eu lhe digo: “Hoje me tornei adulta. Perdi um filho.”
Me lembro claramente
desse sentimento. Mas a situação técnica não era essa. Ovo cego, diz o Google. O
embrião nunca se formou. Penso em parede cega – aquelas áridas laterais de
prédio sem janelas, viradas para o nada. O nada. Não havia bebê. Sensação de
ser traída pelo próprio corpo. Como minha barriga me deixava acariciar o bebê
que não havia, como eu podia não saber?
Dizer “Quando perdi o
bebê” me foi impossível por muito tempo, parecia que não era honesto ou preciso. Assumi a frase “Quando tive o aborto”. Mas hoje começo a me
permitir dizer que perdi o bebê. Aceitar que perdi o bebê.
Eu perdi o bebê, aquele
que eu acalentava, que estava dentro de mim, embora não crescesse no meu útero.
Os dias que se seguem
são de um atordoamento estranho. Fico ressentida com o marido que não tem
vontade de falar sobre o assunto. Eu quero falar. E chorar.
Tive um aborto
espontâneo dias depois. Começou no banheiro de um auditório, estávamos num show
de música. Saio do banheiro chorando. Seria o primeiro de uma série de choros
contidos em lugares públicos. Durou alguns dias. O sangramento. O choro durou
mais.
Não precisei de
curetagem, clínica, hospital, nada. Um aborto espontâneo e completo. Útero limpo.
Coração em frangalhos.
O filho que eu não tive
veio me lembrar que a vida não se planeja. Podemos nos preparar, podemos
acalentar o vindouro e deixar tudo arranjado para acolher sua chegada.
Aprendemos no processo. Mas o caminho à frente nunca foi percorrido. Sempre.
O filho que eu não tive ajudava
a preparar a mãe que eu seria.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2015
(In)defectiva
A ginecologista nova não pergunta de ginecologias. Pergunta como está a vida. E ela fala sério, não se trata de "Tudo bem" e um sorriso amarelo. Não dá folga.
Lá pelas tantas estou chorando. (Ela tem lenços à mão, sabe de seus talentos.)
- Confesso que ando às voltas com o fantasma do corpo defectivo. E se tooodos os meus filhos ficarem sentados? Eu fiquei sentada. Ela ficou sentada. Talvez eu tenha uma bacia errada, uma coluna torta, uma maldição qualquer que sentará todos os meus bebês.
- Bebês sentados nascem bem, e até mais rápido. Se todos os seus filhos ficarem sentados, talvez seja porque você é uma mulher ótima para parir bebês sentados.
Há quem alimente nossos fantasmas. Encontrar quem ajude a exorcizá-los é uma dádiva. Ou uma conquista.
terça-feira, 13 de janeiro de 2015
O nome dos bois
Tem gente que gosta de marca. Lacoste, Prada, Gucci. Peppa, Hello Kitty, Elsa.
Mas eu, que sempre fui mais de camiseta, bolsa, óculos de sol, prefiro porquinha, gatinha e princesa.
O dia depois de hoje
Calor escaldante.
Com a roupa mais fresca que o ambiente paulistano me permite circular por aí, deixo a filha na escolinha de férias e vou procurar um lugar próximo para me aboletar com o laptop pelo resto da tarde.
Dentro da padaria me sinto a salvo. Verdade que o ar-condicionado é quase neutralizado pelo calor que sai da cozinha, do bufê de comida quente e da multidão que circula com seus pratos pra lá e pra cá, mas esse "quase" me faz sentir que a vida pode ser normal.
Se eu estivesse em casa, certamente tomaria três banhos ao longo da tarde. O vizinho ficaria indignado com a minha falta de consciência sobre a crise da água (que ele pensa que é culpa minha e da falta de chuva, e não do governador que ele elegeu).
Mas estou na padaria. Tentando levar uma vida normal. Ligo o computador. A internet não funciona. Tento telefonar para conseguir ajuda sobre o sinal de internet, mas o sinal do celular também não está bom. Trabalho como dá. Penso naqueles filmes de gente que tem transmissor de rádio e conhece código Morse.
Levanto pra ir embora e espio pela vidraça. O céu está com aquela carranca avisando que eu não devia tentar andar pela rua no fim da tarde. Olho o carro: esqueci os faróis acesos a tarde inteira.
Pago. Saio da padaria. O carro liga, ufa. Pego a filha na escola sob os primeiros pingos gordos de chuva. Que bom, vai refrescar um pouco.
Decido parar e comprar uma fita adesiva para remendar a tela contra mosquitos da sala. Esses pernilongos não respeitam nada, meu deus. Tento avisar o marido que vou demorar um pouquinho mais, mas o telefone ainda não funciona.
Uma árvore cai na rua da loja. Via bloqueada não se sabe por quanto tempo. Fico "presa" ali por três horas, tentando distrair uma criança de três anos. Pão de queijo, suco de manga. O liquidificador funciona. Mas é pelo gerador, pois na verdade a área está sem energia.
Tiram a árvore. Vou enfim para casa por ruas quase alagadas, lentas, de semáforos apagados e caídos.
******
Este verão em São Paulo está rescendendo a filme-catástrofe de Hollywood. Não se espante se o Will Smith cruzar com você na rua, ou o Morgan Freeman aparecer fazendo pronunciamento na TV. Se você tiver energia e sinal de TV, claro.
quinta-feira, 1 de janeiro de 2015
Férias
Aproveitando o primeiro dia do ano para fazer uma confissão bombástica: eu não gosto de praia.
Vamos ser francos: gosto de passar o dia à toa, tomando caipirinhas e comendo peixe frito. Mas, se for na sombra e não tiver areia, tant mieux!
domingo, 7 de dezembro de 2014
De olhos abertos
Eu não sou uma pessoa
mística. Mas Teresa nasceu exatamente como eu imaginava: parecia que a menina
tinha mandado seu anjo da anunciação carregando retrato. Cabelos escuros, olhos
grandes e abertos. Muito abertos. E firmes. Nunca teve olhos de recém-nascido:
já veio encarando o mundo de frente. (Vai ver conhecia o poema.)
Também nasceu de unhas
compridas, a pele descamando. Uma enfermeira disse à minha mãe que era porque
passou do tempo. Ela não passou de nada. Nada lhe passa.
Ficou sentada, ninguém
sabe por quê. A despeito da yoga, a despeito da acupuntura, a despeito da tentativa
de versão cefálica. Foi até o meio e voltou. Ficou sentada. Decidiu que eu
teria de me haver com aquilo. (Não tinha eu também ficado sentada? Então...)
Não bastasse a posição
pélvica, ela soube reivindicar o tempo que lhe era de direito. Às 39 semanas,
rompi com a obstetra que me acompanhara e que decidiu, na terça-feira, que quinta
era um dia conveniente para a cesárea. Em duas semanas, falei com mais médicos do
que falara nos últimos dois anos. Às 41 semanas ela veio para o meu colo. Sem trabalho
de parto. Na cesárea não planejada, desplanejada, replanejada.
Parece que a menina que me
olha nos olhos e diz o que quer tem seus próprios planos.
sexta-feira, 5 de dezembro de 2014
segunda-feira, 17 de novembro de 2014
Para falar de desmame
Teresa parou de mamar. Encerramos nossa amamentação.
Poderia dizer que desmamou (e desfraldou, aliás...). Mas eu
detesto essas palavras. Não sei bem por quê. Neurose de mãe superprotetora que
não quer que a filha saia de baixo das asas. Receio da ideia de estar tirando alguma
coisa dela. Recusa em fazê-la objeto de um outro ser que lhe impõe uma falta,
uma carência.
Ela conquistou seu desmame e seu desfralde. Não foi
desmamada nem desfraldada. Ela está crescendo (preciso dizer que a menina cresce mais rápido que o tempo), e assim coisas novas podem entrar em sua
vida, como a capacidade de comer de tudo, de dormir sem sugar, de ganhar o
banheiro.
Daí que um dia, contando a uma amiga que minha filha não
mamava mais, fiquei procurando uma frase para dizer em vez de “Foi um processo
bem natural...” Ela ficou um pouco espantada com a minha recusa em relação à
palavra “natural”, hoje tão frequentemente associada a apreciações positivas.
Dia desses li qualquer coisa em qualquer lugar sobre
pesquisadores terem identificado comportamento homossexual em animais. A ideia
era que esse é, portanto, um comportamento muito “natural”, logo não deveria
causar escândalo que seja observado entre seres humanos. A classificação de
“natural” legitima o ato. Se é natural, devemos respeitar, pois a natureza não
é boa nem ruim (embora haja quem diga que ela é sábia), a natureza apenas é – e
quem seria o insano a se rebelar contra aquilo que apenas é? Bem, a mim me
parece que o comportamento homossexual entre seres humanos é legítimo não
porque ele é da natureza, mas porque é da humanidade. Porque é uma realização
do afeto e da sexualidade humana. Porque é um dos caminhos socialmente
construídos para o estabelecimento de relações humanas, para a satisfação e crescimento
mútuo dos envolvidos.
Seres humanos não são naturais. E o que dizer depois da
desfaçatez de lançar assim uma frase categórica para cuja sustentação eu não
tenho repertório filosófico? Nós temos fisiologia. Temos instintos. Mas conquistamos
a capacidade de refletir de maneira inédita sobre nossa própria existência e
sobre a alteridade. E sobre nossa fisiologia e nossos instintos. A individualidade
iluminista e liberal instrumentalizada pelo mundo do dinheiro e do trabalho (cá
estou eu metendo-me em filosofias que não conheço) alimenta uma atitude
aparentemente libertadora de reivindicação do natural. Porque algo precisa se opor
ao sufocamento do corpo, da fisiologia e do instinto sob a lógica da máquina e
do relógio.
Mas essa oposição não pode ser a reivindicação do natural. O
natural é aquilo que não somos mais, e já foi dito que a história só se repete
como farsa. Se estamos para utopias, a minha é a do humano, não a do natural, a
da realização plena do humano. Seja lá o que isso for.
(A expressão “parto natural humanizado” revela bem que o
“seja lá o que isso for” é algo que ainda não sabemos bem o que é. Talvez a
possibilidade de um atendimento à mulher que constitua de fato um caminho em
direção a essa utopia seja algo tão inimaginável que ainda não se pôde nomear.)
E nessa mesma trilha vem o “desmame natural”, entendido como
aquele que respeita os ritmos da mãe e da criança, que respeita as fisiologias
e as necessidades mais íntimas daqueles dois seres.
Eu acredito que vivi o processo de amamentação da minha
filha com a profundidade que a expressão “necessidades íntimas” sugere. O que
ele me fez descobrir a respeito de mim mesma e o que me permitiu refletir sobre
a relação entre pais e filhos foi impressionante, para mim. E o fim dessa
amamentação se estabeleceu de maneira gradual, lenta, penso que respeitosa para
nós duas e, até, prazerosa e divertida.
E isso não foi natural coisíssima nenhuma!
Foi construído. Foi construído pela persistência para que a
amamentação se estabelecesse. Foi construído nos primeiros dias, quando ela não conseguia mamar e aceitou o leite ordenhado oferecido pelo pai. Foi
construído naquelas mamadas doloridas. Foi construído naquelas mamadas prazerosas, de troca
de olhares profundos. Foi construído quando fazíamos nosso mamá no sling, na
yoga, no bar. Foi construído quando entendi que os infinitos despertares
noturnos não eram bons para mim. Foi construído quando me irritei com a demanda
que me parecia grande demais. Foi construído quando parei de interromper
refeições e outras coisas importantes para amamentar. Foi construído quando entendemos
que podíamos jantar e conversar juntas, e que isso também era gostoso. Foi
construído quando percebemos que brincar na festa podia ser mais gostoso que
mamar na festa. Foi construído em cada momento em que ela percebeu que se
precisasse mesmo, poderia mamar no meio da noite, da refeição ou da festa. Foi
construído em cada noite em que a amamentação era necessária para trazer o
sono, e em cada noite em que dormimos cantando. Foi construído a cada vez que
ela mamava um tiquinho, ria porque o leite tinha acabado e pedia o outro peito.
Foi construído a cada noite em que contei a história da menina que não sabia
comer e foi crescendo e agora sabia, e ela enumerava todas as coisas que já
sabia comer. Foi construído até o último momento, quando nossa amamentação se
encerrou quase que com uma gargalhada.
Isso não é natural. Precisamos de outra palavra. Isso é uma busca deliberada por autoconhecimento e disposição consciente para se ligar ao outro. Isso
é humano.
Teresa parou de mamar. Encerramos nossa amamentação. Da
última vez, ela tentou, começou a rir desabridamente e lançou “Não tem nada,
né, mamãe? É porque o peito sabe que eu já sei comer.” Assim encerramos essa
fase da nossa relação: juntas e rindo.
Que sejamos capazes de caminhar sempre assim, minha filha.
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